Cientistas descobrem duas novas espécies de pássaros venenosos cuja carne arde como pimenta
Aves consideradas comuns escondiam uma defesa química rara, capaz de irritar mucosas e afastar quem tentasse capturá-las ou consumi-las.
Os pássaros venenosos identificados na Nova Guiné não são espécies novas para a ciência, mas aves conhecidas que agora integram a lista de animais tóxicos. A análise encontrou batracotoxina nas penas e na pele, enquanto moradores relatam ardor semelhante ao da pimenta ao consumir a carne.
Quais são as duas espécies de pássaros venenosos?
As aves são o assobiador-regente, Pachycephala schlegelii, e o rufous-naped bellbird, Aleadryas rufinucha. Elas já eram conhecidas pela ornitologia, mas sua capacidade de armazenar uma neurotoxina só foi documentada após análises de amostras recolhidas nas montanhas da Papua-Nova Guiné.
O resultado foi publicado originalmente em 2023, no periódico Molecular Ecology, e voltou a circular em 2026. A Universidade de Copenhague informou que nenhuma nova ave tóxica havia sido reconhecida em mais de duas décadas.

Por que a carne dessas aves arde como pimenta?
A comparação com pimenta vem de moradores da Papua-Nova Guiné, que evitam consumir essas aves porque a carne provocaria sensação de queimação na boca. O relato ajudou pesquisadores a considerar a presença de substâncias defensivas, mas não significa que cientistas tenham realizado testes de degustação.
Durante o manuseio, a toxina também pode irritar olhos, nariz e mucosas. Um pesquisador comparou a retirada de amostras de penas em espaço fechado ao desconforto de cortar cebolas, embora as concentrações encontradas nas aves sejam menores que as observadas em algumas rãs venenosas.
Como a batracotoxina age no organismo?
A batracotoxina interfere nos canais de sódio das células nervosas e musculares, mantendo-os abertos. Em concentrações elevadas, esse mecanismo pode causar contrações intensas, alterações cardíacas e morte, mas o estudo não apontou que tocar casualmente nessas duas aves seja fatal para humanos.
Elas são chamadas de tóxicas ou venenosas porque carregam a substância nos tecidos e na plumagem. Não possuem ferrão, presa ou aparelho capaz de injetá-la, diferença que as separa de animais peçonhentos.
Os pontos centrais ajudam a interpretar a descoberta:
Como os pássaros carregam a toxina sem adoecer?
Os pesquisadores encontraram alterações no gene relacionado ao canal de sódio Nav1.4, alvo da batracotoxina nos músculos. Essas mudanças são apontadas como parte da autoresistência que permite às aves conviver com a substância sem sofrer o mesmo bloqueio fisiológico imposto a outros animais.
A hipótese predominante é que a toxina venha da alimentação, possivelmente de besouros do gênero Choresine, e seja acumulada pelo organismo. A origem exata ainda não está encerrada, assim como a função defensiva contra predadores e parasitas permanece em investigação.
Os cards resumem as principais relações biológicas:
Por que a descoberta interessa à ciência?
A constatação amplia o pequeno grupo de aves conhecidas por armazenar toxinas e oferece novos casos para estudar evolução convergente. Rãs sul-americanas e pássaros da Nova Guiné desenvolveram, de forma independente, mecanismos capazes de lidar com substâncias semelhantes.
Os resultados também mostram como espécies consideradas comuns ainda podem esconder características biológicas desconhecidas. Pesquisas futuras deverão medir a variação da toxicidade, confirmar a origem alimentar e avaliar se a batracotoxina protege principalmente contra predadores, parasitas ou ambos.
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