Cientistas retiram cilindro de gelo de quase 2,8 quilômetros para voltar 1,2 milhão de anos no clima da Terra
O gelo guarda pistas de mudanças climáticas ocorridas há milhares de anos
Como saber que tempo fazia na Terra antes dos humanos existirem? Cavando o gelo. Uma equipe do projeto Beyond EPICA perfurou 2.800 metros na Antártida e trouxe um cilindro com 1,2 milhão de anos de história do clima, o registro contínuo mais antigo já retirado do planeta.
O que é o cilindro de gelo mais antigo já perfurado?
O Beyond EPICA – Oldest Ice é um projeto europeu que perfurou o gelo da Antártida até atingir a rocha do fundo. O local escolhido foi o Little Dome C, um ponto isolado a 950 km da costa e 35 km da Estação Concordia, base franco-italiana no leste antártico.
A perfuração começou na temporada 2021/2022 e terminou em janeiro de 2025, na 4ª campanha. O trabalho foi financiado pela Comissão Europeia e coordenado pelo Instituto de Ciências Polares do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália, com 12 institutos de 10 países envolvidos.

Como foi a perfuração no gelo antártico?
O Little Dome C fica a 3.200 metros de altitude, com temperatura média no verão de -35 °C. Foram mais de 200 dias de trabalho em campo, divididos em 4 temporadas. Cada cilindro extraído tem cerca de 1 metro de comprimento e 10 cm de diâmetro. Os 4 pontos que fizeram o feito único:
Por que a marca de 1,2 milhão de anos importa?
O registro anterior do EPICA chegava a 800 mil anos e mostrava que as eras glaciais aconteciam a cada 100 mil anos. Antes disso, porém, o ciclo era diferente: durava 41 mil anos. Ninguém sabe explicar por que a Terra mudou de ritmo, no que os cientistas chamam de Transição do Meio-Pleistoceno.
Segundo Carlo Barbante, coordenador do projeto e professor da Universidade Ca’ Foscari de Veneza, o novo cilindro cobre exatamente essa fase de mudança. Veja o salto que o material representa em relação a projetos anteriores:
| Projeto | Profundidade | Registro climático |
|---|---|---|
| VostokRússia, anos 1990 | 3.623 m | 420 mil anos |
| EPICA Dome CEuropa, 2004 | 3.270 m | 800 mil anos |
| Beyond EPICAEuropa, 2025 | 2.800 m | 1,2 milhão de anos |
Como o gelo vai virar dado científico?
Depois de retirado, o cilindro precisa chegar à Europa sem descongelar 1 grau sequer. O material vai a bordo do navio Laura Bassi, dentro de contêineres refrigerados a -50 °C, num percurso que cruza a linha do equador. Se a temperatura subir, as bolhas de ar se rompem e o registro se perde para sempre.
Já nos laboratórios, o gelo é cortado em fatias finas e passado por espectrômetros de massa. Segundo o Instituto Alfred Wegener, os aparelhos medem a proporção de isótopos de oxigênio e hidrogênio, que revela a temperatura da atmosfera na época. As bolhas de ar são analisadas separadamente para medir gás carbônico e metano.

O que o cilindro pode revelar sobre o clima atual?
Ele serve como espelho. Ao comparar níveis passados de gás carbônico com os atuais, os cientistas conseguem separar o que é variação natural do clima do que é efeito da ação humana. Amostras do Beyond EPICA já indicam que as concentrações atuais de gases-estufa são 50% maiores que em qualquer momento dos últimos 800 mil anos.
A meta seguinte da equipe é chegar a 1,5 milhão de anos, revisitando os poucos metros de gelo mais deformado, junto à rocha. Se a análise confirmar essa datação, o projeto terá recuperado o registro contínuo mais longo já obtido do clima da Terra.
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