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Risco no mercado de fertilizantes aumenta com retomada da guerra no Irã
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Carlos Graieb
5 minutos de leitura 08.07.2026 13:28 comentários
Oráculo

Risco no mercado de fertilizantes aumenta com retomada da guerra no Irã

Até junho, dois terços das compras de fertilizantes para a soja haviam sido concluídos. O terço restante concentra os produtores mais expostos

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Carlos Graieb
5 minutos de leitura 08.07.2026 13:28 comentários 0
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Risco no mercado de fertilizantes aumenta com retomada da guerra no Irã
Donald Trump assina memorando de entendimento que caiu por terra nesta quarta-feira, 8. (Foto: Daniel Torok/ White House)
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A nova escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã — marcada por novos ataques militares, pela declaração de Donald Trump de que a trégua “acabou” e pela retomada das tensões no Estreito de Ormuz — amplia um problema que já preocupava o governo brasileiro e o setor agrícola: o abastecimento de fertilizantes para a safra 2026/27.

Os desdobramentos militares estão sendo acompanhados em outras reportagens de O Antagonista.

O ponto relevante para empresas e executivos é outro: mesmo que os combates cessassem hoje, as cadeias globais de suprimento levariam meses para voltar ao normal.

A continuidade da guerra prolonga esse período de incerteza e aumenta a pressão sobre preços, logística e disponibilidade de insumos.

Por que importa

O Brasil consolidou-se como potência agrícola, mas continua altamente dependente de fornecedores externos para sustentar sua produtividade. Em 2025, importou cerca de 45,5 milhões de toneladas de fertilizantes — aproximadamente 92% do consumo nacional.

Sempre que choques geopolíticos afetam energia, transporte marítimo ou grandes exportadores de matérias-primas, essa dependência torna-se um risco operacional para toda a cadeia do agronegócio.

O conflito no Oriente Médio agrava exatamente esses fatores. O petróleo mais caro eleva custos de frete e logística, enquanto a instabilidade aumenta a competição internacional por fertilizantes e matérias-primas.

O efeito não se limita aos preços: pode reduzir a previsibilidade de entrega e dificultar o planejamento financeiro de produtores, distribuidores e empresas da cadeia de alimentos.

Brasília atua em modo de contingência

A Casa Civil organizou um comitê de crise e mobilizou a diplomacia brasileira para negociar fornecimento emergencial de fertilizantes com Rússia, China e Marrocos.

O objetivo é tentar assegurar volumes suficientes para a próxima safra e, se possível, construir mecanismos permanentes de cooperação, capazes de reduzir o impacto de futuras rupturas internacionais.

O ponto mais delicado

Segundo Rabobank, CNA, Anda e Sinprifert, a situação mais delicada concentra-se nos fertilizantes fosfatados, especialmente nas cadeias de enxofre, ácido sulfúrico e MAP (fosfato monoamônico).

O potássio permanece relativamente bem abastecido, mas o fósforo opera sob mercado muito mais pressionado.

Essa distinção importa porque evita diagnósticos apocalípticos. Não há indicação de um colapso generalizado do abastecimento.

O risco está concentrado em determinados nutrientes – ainda que estes sejam fundamentais para culturas como a soja, que tem enorme peso na balança comercial brasileira.

O calendário joga contra

Até meados de junho, aproximadamente dois terços das compras de fertilizantes para a soja haviam sido concluídos.

O terço restante concentra justamente os produtores mais expostos às oscilações de preços e disponibilidade.

Se o conflito persistir durante julho e agosto, a pressão tende a coincidir com a fase final das compras para a soja e, em seguida, com o início da demanda de insumos para o milho safrinha.

Essa sobreposição pode elevar custos e reduzir o poder de negociação dos compradores.

O risco financeiro pode superar o logístico

A agricultura brasileira enfrenta um ambiente de crédito mais restritivo e índices elevados de inadimplência.

Mesmo que o produto esteja disponível, parte dos produtores pode optar por reduzir a adubação para preservar caixa.

Essa decisão diminui o desembolso imediato, mas aumenta o risco de perda de produtividade.

Em outras palavras, a crise geopolítica pode afetar a próxima safra tanto pela disponibilidade física dos insumos quanto pela capacidade financeira de adquiri-los.

O que empresas devem acompanhar

Nos próximos meses, o principal indicador continuará sendo a evolução do conflito no Oriente Médio e seus efeitos sobre o Estreito de Ormuz, já que qualquer interrupção prolongada da navegação tende a pressionar fretes, seguros marítimos e preços internacionais de energia.

Para o agronegócio, porém, a atenção deve se voltar sobretudo ao mercado de fertilizantes fosfatados, cuja oferta já operava sob restrição antes da retomada dos confrontos.

Também será importante acompanhar o ritmo das compras para a safra de soja durante julho e agosto, período em que produtores normalmente concluem a aquisição do último terço da demanda e ficam mais expostos a aumentos de preços e atrasos nas entregas.\

No plano institucional, merece atenção a capacidade do governo brasileiro de transformar as negociações conduzidas com Rússia, China e Marrocos em fornecimento efetivo de insumos.

Por fim, a situação financeira dos produtores deve permanecer no radar: mesmo que o abastecimento seja preservado, juros elevados e restrições de crédito podem reduzir a adubação em parte das propriedades, afetando a produtividade.

Resumo da ópera

A nova escalada entre Estados Unidos e Irã torna ainda mais visível uma dependência que vem crescendo há anos. Mesmo que a guerra terminasse de fato, a recomposição das cadeias globais de suprimento exigiria tempo para reorganizar estoques, contratos e fluxos logísticos.

A sua continuidade aumenta a probabilidade de pressão sobre preços e disponibilidade justamente no momento decisivo para o planejamento da safra 2026/27. Para empresas, o desafio é incorporar esse risco geopolítico às decisões de compras, crédito, gestão de estoques e planejamento.

Leia mais: O que a Noruega pode ensinar ao Brasil não tem a ver com futebol

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Carlos Graieb

Carlos Graieb é jornalista formado em Direito, editor sênior do portal O Antagonista e da revista Crusoé. Atuou em veículos como Estadão e Veja. Foi secretário de comunicação do Estado de São Paulo (2017-2018). Cursa a pós-graduação em Filosofia do Direito, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

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