Caso Charlie Kirk: psicopatas não precisam de ideologia para matar
Não foi a esquerda, ou as ideias do jovem conservador, a responsável pelo cruel assassinato
Charlie Kirk foi covardemente assassinado enquanto falava a estudantes na Universidade Utah Valley, em Orem, estado de Utah, na última quarta-feira, 10, diante de mais de três mil pessoas. Um tiro certeiro no pescoço – cena que absolutamente ninguém deveria naturalizar – encerrou a vida e a trajetória do influencer político conservador americano.
Segundo informações, Tyler Robinson, 22 anos, teria confessado o assassinato, e há fortes evidências forenses e depoimentos que o conectam ao crime. Mas a motivação permanece desconhecida: política, ideológica, psicótica ou outra? Ninguém está dentro da cabeça do assassino para afirmar que o crime foi consequência direta das ideias de Kirk.
Psicopatas e selvagens não precisam de ideologia para agir. Direita, esquerda, democrata, republicano… O papa João Paulo II sofreu um atentado em 1981, baleado em plena Praça de São Pedro. A questão é muito simples: ninguém escapa da sanha doentia e homicida de fanáticos e criminosos cruéis. A violência não precisa de doutrina para se manifestar.
Retórica bélica
Contudo, o que também aterroriza é a reação coletiva. Na internet, há quem ironize e até aplauda, transformando a estúpida execução em mera disputa política. Mas há quem, em nome da civilidade – muitas vezes pretexto para ganhos políticos – peça o emprego, a prisão ou outra forma de punição a estes infames militantes de redes sociais.
O presidente Donald Trump reagiu com a tradicional verborragia inflamada, culpando a “retórica da esquerda radical” pelo assassinato, dizendo que é preciso “derrotar bravamente” esses grupos, que considera responsáveis pelo clima de ódio. No Brasil, Nikolas Ferreira – sempre ele – prega abertamente contra a mesma esquerda.
A questão fundamental, porém, é: assim como políticos e militantes de direita não são fascistas, nazistas, racistas etc., como costumam ser acusados generalizadamente – ainda que muitos sejam -, políticos e militantes de esquerda não são assassinos – ainda que casos como o de Charlie Kirk sejam abundantes na história passada e recente.
Pobres crianças
As ideias e falas de Kirk podiam ofender, agredir e provocar repúdio. Nada, porém, autoriza ou explica alguém pegar um rifle e rasgar o corpo de uma pessoa. Empurrar a responsabilidade (culpa) para suas opiniões é uma tentativa de eximir o único agente real do crime: Tyler e sua psicopatia mortal. Essa transferência de culpa é simplória e perversa.
O mundo é cruel. A vida é cruel. A natureza é cruel. Neste caso, contudo, “os mais fortes sobrevivem”. As espécies adultas estão preparadas para a luta pela sobrevivência. Mas crianças e idosos, não. Viver sem pai já é difícil e triste o bastante. Viver com a lembrança do pai jorrando sangue pelo pescoço é insuportável, irrecuperável, incurável.
Um trauma assim é uma rachadura estrutural eterna. A vida dessas crianças foi marcada por uma imagem que não se apaga. E ninguém, nenhum influenciador oportunista, nenhum partido político, nenhum populista barato poderá reparar isso com bravatas e propagandas ideológicas. Os pequeninos crescerão deformados emocionalmente pela barbárie.
FMB e o binarismo
Quem despreza esse fato – e a imagem do crime – precisa urgentemente repensar a própria humanidade. A polarização que alimenta o ambiente de ódio, a partir de líderes políticos e militantes inescrupulosos, atende ao propósito da cisão social que lhes rende o ganho imoral almejado: votos, eleições, visibilidade, fama, poder, dinheiro.
Felipe Moura Brasil escreveu uma crônica em O Antagonista, “O julgamento das mentes binárias”, descrevendo que esses momentos de comoção pública ilustram como o populismo agrava a miséria cognitiva, levando muitos a pensar exclusivamente em termos do “nós contra eles”, sem qualquer espaço para análises complexas ou empáticas.
É como se absolutamente nada no outro pudesse nem sequer ser levado em conta. É legítimo que figuras públicas exponham suas falas. Mas é eticamente criminoso transformar opinião em sentença de morte de terceiros. Deve-se combater ideias com argumentos, e tratar a violência – qualquer violência – como crime, e não mera disputa política.
A banalização do ódio – seja aplaudida pela esquerda ou pregada pela direita – está produzindo como consequência prática e previsível mais sangue. Quem comemora a morte de Kirk já concordou com o efeito dessa odienta retórica bélica, e não poderá alegar surpresa quando algum psicopata, à solta, decidir transformar o debate em munição fatal.
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