O julgamento das mentes binárias
Momentos de comoção política ilustram como o populismo agrava a miséria cognitiva
Mentes binárias são como as de crianças que chamam até 50 tipos diferentes de vegetais de “batata”: elas não detectam nuances, não fazem distinções, não sabem nem reconhecem a expressão de cada elemento isolado.
Se você avalia o brócolis, mentes binárias concluem que você avaliou dezenas de vegetais, ou qualquer outro deles.
Desse modo, um comentário crítico à couve-flor pode irritar profundamente uma mente binária apaixonada por abobrinha.
Uma reflexão sobre a contribuição do espinafre para o fortalecimento dos músculos pode render imediata “discordância” de uma mente binária que não enxerga essa qualidade no chuchu.
E se você elogiar o sabor da abóbora, cuidado: pode ser atacado, virtual ou fisicamente, por uma mente binária que odeia berinjela.
Curiosamente, o repertório limitado das mentes binárias não gera conflitos apenas com outras pessoas. Gera, também, frustrações frequentes de sua própria expectativa de satisfação.
Uma criança não educada pede e recebe “batata”, mas chora, porque queria cenoura. Uma criança educada pede e recebe mandioca, depois come e se satisfaz, mesmo sem entender por que também chamam de macaxeira e aipim.
O trabalho da educação, assim como do jornalismo e da psicanálise, se bem desempenhado, amplia justamente o repertório das mentes binárias, para que elas se tornem capazes de identificar e nomear o máximo possível de elementos da realidade exterior e interior, possibilitando a organização mental e, com isso, escolhas e decisões mais adequadas.
Educação x populismo
A educação – palavra que, em latim, traz o sentido de “levar para fora” – adapta a mente à complexidade do mundo, alargando-a para compreendê-lo. Já o populismo, em sentido contrário, ao dividir a sociedade em “nós contra eles”, busca adaptar a complexidade do mundo para caber em uma mente binária; e para “binarizar” mentes supostamente cultivadas.
Pessoas que só conseguem distinguir “batatas” de “bifinhos” tendem a se emocionar com lacrações virtuais e discursos políticos feitos sob medida para a sua capacidade mental (principalmente se elas não receberam amor dos pais e buscam a figura paterna em lideranças políticas). Afinal, basta compreender que seu líder populista representa o “bem”; seus inimigos, o “mal”; e elas terão, pelo menos, a satisfação de pertencerem ao mesmo grupo, seguras de estarem do lado “certo” da história.
Esse arranjo é uma mão na roda para mentes binárias, porque elas ficam dispensadas do esforço cognitivo de distinguir elementos da realidade; e ainda se sentem à vontade para associar ao lado “errado” da história qualquer um que ouse chamar cada elemento pelo nome,
descompactando suas sínteses enganosas e contrariando as crenças de seu grupo.
Momento mais ilustrativo
Talvez não haja momento mais ilustrativo desse comportamento de mentes binárias que um julgamento penal de seu líder populista. Para elas, todo voto a favor dele é 100% técnico, todo voto contrário é 100% político-ideológico, antes mesmo que sejam proferidos e a despeito da natureza dos fatos e do teor dos argumentos.
A ideia de que possa existir qualquer margem para interpretações variadas de um ou mais dispositivos legais no enquadramento das condutas julgadas é tão insultuosa quanto a defesa de condenação por um ou mais crimes.
Só há duas posições possíveis no repertório das mentes binárias (e não me refiro ao mérito de cada uma, mas à limitação das hipóteses imagináveis): do lado delas, a nulidade do processo, ou a absolvição total; do outro lado, as penas impostas por perseguição política. Em suma: ou você está com elas, ou com seus inimigos. Ou você é “batata”, ou você é “bifinho”.
A possibilidade, por exemplo, de se analisar a gravidade das condutas do réu para além da discussão sobre a configuração dos crimes não é sequer concebida por mentes binárias de ativistas hostis – até porque, para elas, o líder jamais fez algo errado: se em algum momento ele se excedeu, foi na luta por direitos e liberdades do povo; e, caso tenha se beneficiado dos atos, ou fosse se beneficiar das tentativas, era porque merecia.
(Tampouco se concebe ou se admite, assim, que o populista de estimação tenha contribuído, no passado, para a extrapolação de poder da própria Corte, quando ajudou a blindar seus membros contra investigações do Congresso, em busca da boa vontade dos julgadores de seu filho.)
Já a avaliação de que o líder deu margem à abertura legítima da presente ação penal, ainda que ela tramite na Corte ou no colegiado errados, soa ofensiva a mentes binárias, assim como qualquer concordância com falas específicas de juízes que votam contra ele, mesmo que se discorde de outros trechos do voto.
Neste sentido, um posicionamento contrário ao local do julgamento e crítico a diversas condutas do relator, mas favorável à condenação do réu por um ou mais crimes, é igualmente inconcebível e/ou inaceitável.
E se, depois da sentença, você lembrar e informar que o condenado à prisão vociferava contra os direitos dos presos, cuidado: será acusado de conivência com a ditadura da toga.
A polarização entre populistas
Esse primarismo linguístico não afeta o cidadão comum sem a cumplicidade de parte da mídia.
O populismo – ao atrair e multiplicar mentes binárias, engajando, mobilizando, corrompendo, fanatizando e radicalizando segmentos da população – também induz um monte de veículos de comunicação e influenciadores a aderir 100% a um lado contra o outro, legitimando narrativas maniqueístas para cativar com facilidade esse público consumidor e faturar mais alto.
Esse fenômeno político-midiático empurra parcelas do povo com predisposições distintas até o extremo de cada lado, o que implode pontes de contato, inviabilizando o diálogo e interditando o debate sobre a realidade comum a todos.
Muito se fala dos males da polarização, mas pouco de seus efeitos nocivos à linguagem, dos quais decorrem quase todos os outros, incluindo a violência. A polarização entre populistas ajuda a eliminar nuances, distinções, capacidades de reconhecer e expressar cada elemento isolado, sem perder de vista o conjunto da obra.
Não é de espantar que mentes assim manipuladas e afuniladas vivam em ciclos de arrebatamento, frustração e conflito, que eventualmente culminam em choro na cadeia. Para elas, todos os resultados contra “nós” são frutos exclusivos de injustiças cometidas por “eles”, o que legitima qualquer reação drástica, como invadir e depredar prédios públicos.
Enxergar o mundo de forma binária é um dos piores castigos que as pessoas podem infligir às outras e a si próprias. Para interromper esse ciclo de estupidez que assola o país e o resto do mundo, o jeito é aprender e ensinar desde cedo os nomes dos 50 tipos diferentes de “batatas”. Porque quem não sabe separar beterraba de tomate nunca vai distinguir rúcula de agrião.
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Comentários (5)
Isadora Z Marques
25.09.2025 09:48Felipe, sua inteligência é sempre admirável! Excelente texto
Nelson Lemos Costa
17.09.2025 15:10"Esse primarismo linguístico não afeta o cidadão comum sem a cumplicidade de parte da mídia". Essa afirmação se torna ainda pior quando, visivelmente, se dá em razão do dinheiro de publicidade governamental e outros afagos e facilidades. É feito com conhecimento de que se está reforçando um comportamento lamentável e perpétuo.
Edmilson Siqueira
15.09.2025 18:28Dá um imenso prazer ler artigos como esse e uma satisfação muito grande em assinar O Antagonista e a Crusoé. Parabéns, Felipe!
Fabio B
15.09.2025 17:42Excelente artigo. Vale acrescentar que o problema tende a se agravar em públicos mais velhos. E impossível não pensar do eleitorado bolsonarista ainda fiel, pois o envelhecimento cognitivo os torna ainda mais prisioneiros dessa armadilha mental.
ISABELLE ALÉSSIO
15.09.2025 17:28“ Ao vencedor , as batatas”! Brilhante como sempre, FMB ! E sempre com o português impecável ! 🏆👏🏻