Votos, juízes, caneta: Trump repete, nos EUA, modelo de autocracias conhecidas
O autocrata tresloucado encontra-se mais que à vontade para subjugar não apenas o Brasil, mas qualquer democracia que bem entenda
À esquerda e à direita, civis ou militares, regimes autocráticos mundo afora costumam apresentar o mesmo padrão e o mesmo roteiro do caos institucional. Primeiro, líderes políticos populares e carismáticos, a partir do rancor e da insatisfação da população, passam a maldizer e a desacreditar as instituições públicas e privadas.
Governos, Banco Central, Judiciário, imprensa, entidades de classe, sindicatos… Tudo passa a ser alvo de um ataque sistemático e sistêmico, inclusive o processo eleitoral, a ciência ou qualquer outra instituição que outrora gozava de alguma credibilidade. A sociedade se divide e a virulência se torna lugar comum.
Ato contínuo, uma vez eleito o populista autoritário, a ordem é aparelhar e instrumentalizar as instituições democráticas. Coopta-se o sistema político até obter maioria parlamentar; investe-se contra a imprensa até desacreditar veículos profissionais enquanto financia vozes de aluguel, e atenta-se frontalmente contra a Justiça, buscando, também ali, maioria.
“Faço, porque posso”
A sequência já é mais do que conhecida: alterações sucessivas nas leis e na constituição permitem reiteradas reeleições ou o desequilíbrio eleitoral, privilegiando o grupo dominante, eliminando parcial ou por completo toda e qualquer forma de oposição. Rússia, China, Venezuela, Hungria, Turquia, El Salvador… Exemplos existem em abundância.
Quando Donald Trump retornou ao poder, após um primeiro mandato em que tentou quase tudo, ainda que riscos significativos o prenunciassem, creio que nem o mais pessimista democrata americano poderia imaginar tamanho êxito em tão pouco tempo. Os Estados Unidos da América estão, literalmente, de joelhos perante o novo imperador global.
O sujeito já pretendeu anexar o Canadá, invadir a Groenlândia, tomar à força o Canal do Panamá e até mudar unilateralmente o nome do Golfo do México, para Golfo da América, que mudou. No Oriente Médio, além de bombardear (corretamente) o Irã, declarou querer expropriar Gaza e mandar os palestinos para outros países da região – obviamente, à força.
Achacador transnacional
Além disso, abriu guerra comercial contra o mundo e mirou nações cujos governos não lhe agradam, notadamente, México, Colômbia, Canadá, China, Índia e Brasil. Sem freios, investe contra veículos de imprensa que o criticam, deporta imigrantes até então considerados legais e proíbe a entrada de estrangeiros a partir de critérios políticos.
Contra o Brasil, impôs tarifas alfandegárias de até 50%, na prática, embargo comercial. Não satisfeito, persegue autoridades do judiciário, baseado em leis americanas emprestadas de modo exagerado, e alega “Ameaça incomum e extraordinária contra a segurança nacional”. O Brasil responde por apenas 1% das importações dos EUA.
Com pequena maioria no Congresso – nas duas Casas, Senado e Câmara -, mas ampla maioria na Suprema Corte e em instâncias inferiores, apoio de boa parte dos grupos econômicos “bi e trilionários” locais, e com a caneta mais poderosa do mundo, Trump não tem encontrado freios e contrapesos efetivos – nem internamente nem externamente.
Make America Free Again
O bufão cor de laranja “passa o trator” sobre países aliados, chefes de governos democráticos e quem quer que ouse transpor seu caminho autocrático, sob aplausos de lunáticos – lá e cá – que costumam justamente apontar e criticar comportamentos semelhantes nas ditaduras já citadas acima – o mais que conhecido “duplo padrão moral”.
Com muito menos poder, e logo após ter perdido as eleições para Joe Biden em 2020, Trump incentivou e estimulou uma horda golpista e violenta a invadir o Capitólio, deixando um rastro de destruição, feridos e mortos. Ainda assim, a Justiça americana não o considerou culpado e os eleitores o conduziram até a Casa Branca mais uma vez.
A última investida autoritária do republicano foi a imposição de federalização provisória – será mesmo? – das forças policiais de Washington, DC. A razão (violência descontrolada na capital) é falaciosa, já que as estatísticas oficiais o desmentem, e os dados que apresentou (violência em Brasília, por exemplo) são falsos, como quase sempre. Trump já havia feito o mesmo, meses atrás, em Los Angeles.
O autocrata tresloucado encontra-se mais que à vontade para subjugar não apenas o Brasil, mas qualquer democracia que bem entenda. Basta querer. Afinal, como ele mesmo disse: “Mando aqui (nos EUA) e no mundo”. Ao que parece, manda mesmo. Ao menos até que um sopro de lei e de democracia ressurja no horizonte da “verdadeira” América.
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