Uso de maconha pode gerar um tipo diferente de psicose
Estudo de Yale sugere que quadro associado à droga difere clinicamente da manifestação “clássica” da patologia
Um levantamento conduzido por pesquisadores da Escola de Medicina de Yale, nos Estados Unidos, identificou diferenças clínicas, cognitivas e neurológicas entre pacientes que desenvolveram psicose após uso de maconha e aqueles cujo quadro não teve relação com a substância.
A pesquisa, liderada pelo psiquiatra Deepak D’Souza, comparou 119 homens internados por um primeiro episódio de psicose, sendo 66 com exposição à cannabis confirmada por exame toxicológico e 53 sem esse histórico.
Os resultados indicam que o transtorno ligado à droga pode configurar um subtipo próprio de doença psicótica, e não apenas uma manifestação precoce de esquizofrenia convencional.
Diferenças no quadro clínico
Segundo o estudo, pacientes com exposição à maconha apresentaram menos sintomas negativos, como embotamento afetivo e perda de motivação, em comparação ao outro grupo. Os níveis de alucinações e delírios, por sua vez, foram semelhantes entre os dois conjuntos de pacientes.
O grupo associado à droga também exibiu mais sintomas depressivos e maníacos, o que caracteriza uma apresentação clínica distinta da forma deficitária clássica da esquizofrenia.
Após quatro semanas de tratamento e abstinência, apenas esse grupo mostrou melhora cognitiva significativa, embora os dois grupos tenham chegado ao hospital com níveis parecidos de comprometimento cognitivo.
Exames de eletroencefalograma também revelaram padrões distintos entre os grupos, o que pode refletir diferenças nos mecanismos de excitação e inibição do córtex cerebral.
D’Souza relacionou os achados à histórica dificuldade de classificar a esquizofrenia como doença única. Ele lembrou que o termo “grupo das esquizofrenias” foi cunhado pelo psiquiatra Eugen Bleuler em 1911, para descrever a heterogeneidade da condição em diversos níveis, da genética molecular às alterações estruturais do cérebro: “É um pouco cedo para tirar conclusões definitivas, mas nossos achados levantam a possibilidade fascinante de que possa haver um subtipo de transtornos psicóticos ligado à cannabis”.
O próprio pesquisador reconheceu limitações do estudo, que incluiu apenas homens e acompanhou os pacientes por somente quatro semanas, período insuficiente para determinar a trajetória de longo prazo do quadro.
“Nossos achados precisam ser replicados. Além disso, é importante reunir dados de acompanhamento de longo prazo para entender se o curso e o prognóstico de longo prazo desse subtipo proposto são distintos”, afirmou.
Evidências de outros centros de pesquisa
Estudos anteriores, conduzidos por pesquisadores do Instituto de Psiquiatria, Psicologia e Neurociência do King’s College London, entre eles Marta Di Forti e Robin Murray, já haviam associado o uso diário de cannabis de alta potência a um aumento expressivo no risco de psicose.
De acordo com essas pesquisas, uma parcela relevante dos casos de primeiro episódio psicótico está ligada ao consumo de produtos derivados da maconha com concentrações elevadas de THC, o principal componente psicoativo da planta.
Um estudo de registro dinamarquês, citado pelo levantamento de Yale, mostrou que a psicose induzida por cannabis apresenta uma das taxas mais altas de conversão para transtornos do espectro da esquizofrenia entre as psicoses associadas a substâncias: cerca de 41% dos pacientes afetados receberam esse diagnóstico posteriormente.
Outras revisões, de autoria de Yücel e de Løberg e Hugdahl, sugerem que o caminho até a psicose em pacientes expostos à cannabis pode envolver comprometimento menos grave do que o observado na esquizofrenia primária.
Pesquisadores também observaram que pessoas com exposição intensa à maconha costumam desenvolver psicose em idade mais jovem do que não usuários, e que alguns estudos relatam menos sintomas negativos e melhor funcionamento cognitivo nesse grupo, quando comparado a pacientes com esquizofrenia sem relação com a droga.
Tratamento e contexto
De acordo com os dados reunidos pelos pesquisadores, o quadro psicótico ligado à cannabis responde a medicamentos antipsicóticos da mesma forma que a psicose primária. No entanto, a manutenção do uso da droga eleva substancialmente os riscos de recaída, nova internação, abandono do tratamento medicamentoso e falha terapêutica.
Os autores apontam que a abstinência reduz o risco de recaída, enquanto o uso contínuo está associado a piores desfechos clínicos e resposta terapêutica reduzida. Por isso, defendem que o tratamento inclua a interrupção do consumo de cannabis e de eventuais transtornos concomitantes por uso de outras substâncias.
O tema ganha relevância em um cenário de início mais precoce do consumo de maconha, uso mais frequente e disponibilidade de produtos comerciais com concentrações de THC muito superiores às registradas em décadas anteriores. Para os pesquisadores, esses fatores podem estar contribuindo para o aumento da incidência de doenças psicóticas observado atualmente.
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