Quais os benefícios de fazer exercícios em casa para quem sofre com Parkinson?
Estudo avalia a eficácia de exercícios em casa e da Estimulação Magnética Transcraniana repetitiva; ganhos funcionais foram atribuídos primariamente ao treino físico
Uma equipe internacional de cientistas, vinculada à Mahidol University, da Tailândia, que contou com a participação de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), demonstrou que a prática de atividade física em ambiente doméstico melhora significativamente a locomoção de pessoas com doença de Parkinson. O estudo, um ensaio controlado randomizado duplo cego, foi publicado na revista Clinical Neurophysiology.
A pesquisa comparou os resultados obtidos pela prática de exercícios domiciliares combinados ou não com a Estimulação Magnética Transcraniana repetitiva (EMTr). O objetivo era investigar alternativas para lidar com as dificuldades motoras e o consequente aumento do risco de quedas inerentes à condição neurológica.
A condição de Parkinson é causada pela degeneração de células em uma área cerebral conhecida como “substância negra”. Entre os sintomas estão a lentidão dos movimentos, rigidez muscular, desequilíbrio, e alterações na fala e na escrita. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que o Parkinson afete cerca de 4 milhões de pessoas globalmente, um número que pode duplicar até 2040.
Os benefícios de se exercitar em casa
O ensaio clínico envolveu 39 indivíduos diagnosticados com Parkinson em nível leve a moderado. Os participantes foram distribuídos em três grupos distintos: um recebeu atividade física e EMTr real; outro grupo recebeu atividade física e EMTr simulada; e o terceiro grupo recebeu apenas o tratamento clínico padrão. Os voluntários não sabiam a qual grupo pertenciam.
O protocolo de intervenção incluiu dez sessões de estimulação e oito semanas de atividades físicas realizadas em casa. O programa domiciliar padronizado focou em postura, respiração, alongamentos, rotações de tronco, equilíbrio e treinamento de marcha com curvas. Todos os exercícios foram realizados com o auxílio de materiais simples.
Os resultados indicaram que os dois grupos que incorporaram os exercícios físicos apresentaram melhorias consideráveis. Estas melhorias foram observadas tanto em medidas clínicas quanto na capacidade de realizar curvas durante a marcha, em comparação com o grupo que não realizou o treinamento físico.
De acordo com o professor Paulo Roberto Pereira Santiago, da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP) da USP, e integrante da equipe, “os exercícios domiciliares foram os motores das melhoras funcionais”. O estudo valida que a prática física em casa, quando bem estruturada e acompanhada, é uma opção acessível e eficaz. A atividade pode ser incorporada facilmente à rotina dos pacientes, melhorando a locomoção e proporcionando ganhos clínicos.
Modulação cortical e limitações da EMTr
Além da atividade física, os pesquisadores investigaram se a combinação com a EMTr poderia potencializar os ganhos motores. A EMTr é uma técnica de neuromodulação não invasiva, que aplica pulsos magnéticos rápidos na cabeça para modular a atividade dos neurônios. No contexto desta pesquisa, a área estimulada foi a motora suplementar, que é responsável pela organização e pelo início dos passos e curvas.
A pesquisa constatou que a EMTr alterou marcadores neurofisiológicos, especificamente a excitabilidade cortical na região mais superficial do cérebro. Essa excitabilidade cortical é a força de resposta dos neurônios a um estímulo e é fundamental para o funcionamento cerebral. Contudo, essa modulação observada no córtex não se traduziu em benefícios clínicos ou cinemáticos adicionais para o cotidiano dos indivíduos, além daqueles já obtidos apenas com os exercícios.
O professor Santiago avalia que, embora o cérebro tenha sido modulado pela estimulação real, este protocolo específico não gerou ganhos perceptíveis no dia a dia. A conclusão sugere que a viabilidade da combinação de neuromodulação e atividade física precisa ser analisada com cautela, pois “a modulação cortical nem sempre se traduz em benefício clínico imediato”.
A continuidade das investigações deve explorar alternativas, como a utilização de diferentes alvos para a estimulação cerebral e a aplicação de técnicas mais precisas para posicionar a bobina da EMTr. Também é essencial analisar subgrupos específicos, como aqueles pacientes que enfrentam o “congelamento da marcha”. O trabalho confirma a importância da prática física para quem convive com o Parkinson.
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