Pesquisa explica efeito do exercício aeróbico contra o câncer
Estudo em camundongos mostra que treino aeróbio só reduz perda muscular e freia tumor quando enzima HO-1 está ativa no músculo esquelético
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) identificaram um mecanismo que pode explicar por que o exercício físico ajuda a conter a perda de massa muscular em quadros de câncer.
Segundo a tese de doutorado de Ailma Oliveira da Paixão, defendida na Escola de Educação Física e Esporte (EEFE-USP) sob orientação da professora Patrícia Chakur Brum, o efeito protetor do treinamento aeróbio depende da atuação de uma enzima específica no tecido muscular, a Heme oxigenase-1 (HO-1).
Resistência do corpo aos nutrientes
A caquexia do câncer é uma síndrome que combina perda progressiva de massa muscular com inflamação generalizada, agravando o prognóstico de pacientes oncológicos.
Diferente de um quadro comum de desnutrição, ela provoca uma espécie de bloqueio no aproveitamento de nutrientes: a inflamação causada pelo tumor impede que o organismo use o que foi ingerido para produzir novas proteínas musculares, ainda que a alimentação seja suficiente.
Por esse motivo, intervenções nutricionais isoladas não revertem o problema. O treinamento físico surge como estímulo capaz de reverter essa resistência, permitindo que os mecanismos de construção muscular voltem a funcionar e que a nutrição tenha efeito real sobre o organismo.
Experimento em duas etapas
A pesquisa foi dividida em duas fases. Na primeira, realizada na EEFE-USP, camundongos cumpriram quatro semanas de treinamento aeróbio antes de receber indução tumoral, seguidas de mais 14 dias de exercício após a inoculação das células cancerígenas. As sessões duraram 60 minutos e ocorreram cinco vezes por semana.
Na segunda etapa, conduzida no Beth Israel Deaconess Medical Center, ligado à Harvard Medical School, os cientistas inativaram geneticamente o gene responsável pela produção da HO-1. Foram usados dois modelos de animais: um com deleção da enzima restrita ao músculo esquelético, e outro com deleção da enzima em todo o organismo.
Ao longo do experimento, a equipe acompanhou o volume do tumor e o peso corporal dos animais para registrar a evolução da caquexia. Amostras de músculos e do tecido tumoral foram coletadas ao final de cada etapa para análise comparativa.
Enzima determina resultado do treino
Os dados mostraram que, nos camundongos com a HO-1 funcionando normalmente, o treinamento reduziu a atrofia das fibras musculares e diminuiu o crescimento do tumor. Quando a enzima foi eliminada no músculo esquelético, esse efeito protetor não se manteve — o exercício deixou de impedir a perda muscular, e o volume tumoral aumentou.
Para a pesquisadora, os resultados indicam que existe troca de sinais entre músculo e tumor mediada por essa enzima. Ailma Oliveira da Paixão disse ao Jornal da USP que “a presença da enzima no músculo esquelético é essencial para que sejam observados benefícios do treinamento na caquexia do câncer, tanto em nível de tecido muscular esquelético como no tumor”.
A autora também observa que a melhora na capacidade aeróbia dos animais treinados pode ocorrer por uma via independente da HO-1, mesmo que os efeitos sobre a caquexia dependam diretamente dela.
Limitação para uso clínico
O trabalho foi realizado exclusivamente em modelo animal, o que impede a aplicação imediata das conclusões em pacientes humanos. Ainda assim, os resultados indicam um caminho para futuras estratégias que combinem exercício físico e tratamentos voltados à preservação muscular e ao controle da progressão tumoral.
A tese completa, intitulada “Influência do treinamento físico aeróbio sobre a Heme oxigenase-1 no controle da massa muscular esquelética e crescimento tumoral em modelo experimental de caquexia do câncer”, está disponível na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP. As duas etapas da pesquisa seguiram os princípios éticos para experimentação animal exigidos pelos órgãos responsáveis.
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