O fígado e o cérebro têm mais em comum do que você imagina
Estudos revelam uma conexão relevante entre funções hepáticas e cerebrais, mediadas por atividades físicas
Uma investigação recente, publicada no Journal of Physiology e conduzida por pesquisadores da Universidade de Missouri, desvendou uma conexão intrigante entre a saúde do fígado e o bem-estar cerebral.
De acordo com Eric W. Dolan, no PsyPost, um estudo liderado pelos professores R. Scott Rector e Taylor Kelty, destaca que a capacidade do fígado de produzir corpos cetônicos é fundamental para manter a função cerebral durante a atividade física. Contudo, a descoberta mais notável foi que os exercícios de resistência conseguiram reverter deficiências cognitivas e restaurar a saúde mitocondrial no cérebro, mesmo em cenários onde a produção de cetonas pelo fígado estava comprometida. Estas novas percepções abrem caminho para estratégias inovadoras na proteção contra doenças cerebrais, como o Alzheimer.
O papel crucial das cetonas e os efeitos da disfunção hepática
Os benefícios dos exercícios para a função cognitiva e a proteção cerebral contra o envelhecimento e as doenças são bem conhecidos. Um dos fatores propostos para esses efeitos são os corpos cetônicos, moléculas geradas pelo fígado durante o jejum ou esforço físico, que servem como fonte de energia alternativa para o cérebro.
O beta-hidroxibutirato, a cetona mais abundante, demonstrou capacidade de reduzir o estresse oxidativo, aprimorar a respiração mitocondrial e promover a plasticidade sináptica. Apesar desse conhecimento, o papel direto das cetonas de origem hepática na mediação dos impactos cognitivos dos exercício não havia sido profundamente investigado.
Para preencher essa lacuna, os pesquisadores utilizaram uma técnica viral para reduzir a expressão da enzima 3-hidroximetilglutaril-CoA sintase 2 (HMGCS2) no fígado de ratas saudáveis, enzima essa essencial para a primeira etapa da produção de cetonas. Essa manipulação permitiu observar as consequências cerebrais quando o fígado não podia gerar cetonas durante o exercício.
Os resultados foram claros: a ausência da produção hepática de cetonas levou a uma disfunção generalizada no córtex frontal, com impactos notáveis nos processos mitocondriais, incluindo menor atividade em vias de produção de energia e menor expressão de proteínas ligadas à plasticidade sináptica. As ratas com deficiência de HMGCS2 também exibiram déficits na memória espacial, sinalizados por um menor tempo de exploração de um novo braço no teste Y-maze.
De acordo com Scott e Kelty, “a produção natural de cetonas pelo corpo é importante para manter o cérebro saudável. Ajuda a manter a memória, as habilidades de aprendizado e a saúde das ‘fábricas de energia’ do cérebro (mitocôndrias)”. É notável que esses prejuízos ocorreram mesmo sem a presença de uma doença neurodegenerativa.
Exercício: o caminho de resgate inesperado para a saúde cerebral
Um dos achados mais surpreendentes da pesquisa foi a capacidade do exercício em mitigar esses problemas. Apesar da deficiência na produção hepática de cetonas, as ratas que passaram por quatro semanas de treinamento de resistência demonstraram desempenho cognitivo normal e função mitocondrial cerebral restaurada.
A análise proteômica revelou marcadores elevados de plasticidade sináptica, incluindo vias associadas à potenciação de longo prazo e sinaptogênese. Isso significa que os exercícios conseguiram compensar a perda de cetonas hepáticas e reverter os prejuízos cerebrais associados.
Os pesquisadores explicaram que, inicialmente, esperavam que a produção de cetonas pelo fígado fosse a razão primária pela qual o exercício beneficiava o cérebro. No entanto, os resultados indicam que “o exercício parece ativar vias de apoio que melhoram a saúde do cérebro mesmo quando a produção de cetonas é reduzida”.
Essa constatação é particularmente relevante para indivíduos com condições hepáticas que podem afetar a produção de cetonas, como a Doença Hepática Esteatótica. Cuidar da saúde do fígado e compreender o metabolismo das cetonas pode ser uma nova estratégia para prevenir ou retardar o avanço de doenças cerebrais, como o Alzheimer, onde disfunções hepáticas e mitocondriais são frequentemente observadas: “Este estudo destaca a importância do exercício para a saúde do cérebro – especialmente para pessoas que possam ter menor produção de cetonas devido a condições hepáticas”.
Em suma: praticar atividades físicas regulares é fundamental para melhorar de maneira significativa as funções hepáticas, e melhorar as funções hepáticas é também uma via indireta para melhorar a saúde cerebral.
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