A desconexão dos jovens hiperconectados

07.07.2026

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A desconexão dos jovens hiperconectados

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Gustavo Nogy
4 minutos de leitura 13.06.2025 18:53 comentários
Cultura

A desconexão dos jovens hiperconectados

A atenção, recurso cada vez mais escasso, tornou-se um campo de batalha para o qual crianças e adolescentes são convocados

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Gustavo Nogy
4 minutos de leitura 13.06.2025 18:53 comentários 0
A desconexão dos jovens hiperconectados

Redes sociais, aplicativos e empresas de tecnologia disputam incessantemente nosso foco, gerando uma sobrecarga que afeta a memória, a aprendizagem e, naturalmente, a saúde mental. A crise de atenção, muitas vezes confundida com simples lapsos de memória, é um sintoma de um modelo de vida exaustivo, marcado por estímulos incessantes e ausência de pausas. Em um cenário de dispersão crescente, precisamos refletir sobre o papel da atenção no dia a dia e na capacidade de aprendizado significativo.

A emergência dessa realidade é tamanha que o filósofo e psicólogo social Jonathan Haidt, em seu best-seller A Geração Ansiosa, aponta que a “infância baseada no celular” priva os jovens de tempo livre, imaginação e do simples brincar. Segundo Haidt, entre 2010 e 2015, a popularização dos smartphones coincidiu com uma duplicação da depressão e quase triplicação da automutilação entre meninas nos Estados Unidos. Correlação nem sempre corresponde a causa, mas os riscos existem.

Adolescentes que dedicam mais de três horas diárias às redes sociais apresentam o dobro do risco de ansiedade e depressão, um perigo amplificado pelo uso precoce que expõe o cérebro à vulnerável dependência da validação social. A minissérie “Adolescência”, da Netflix, ilustra essa realidade, mostrando os impactos do bullying e cyberbullying e a interrupção do sono por notificações incessantes, resultando em isolamento e dispersão.

A lógica dos feeds infinitos e das micro-recompensas digitais, conforme observado por Adriessa Santos e Patrícia Leite do Instituto Singularidades, autoras do artigo “Estratégias para promover o foco ajudam a enfrentar a crise de atenção dos jovens”, impede o foco profundo e atrapalha o pensamento crítico, tornando o cérebro mais suscetível à manipulação.

Quem hoje seria capaz de ler ‘Guerra e Paz’?

A atenção é mais do que concentração; é cuidado, respeito e presença, sendo a porta de entrada para qualquer processo de aprendizagem. O economista Herbert Simon já advertia, em 1971, que “uma riqueza de informação cria uma pobreza de atenção”, sublinhando a necessidade de saber onde direcionar nosso foco limitado.

Segundo o neurocientista francês Stanislas Dehaene, autor de Os Neurônios da Leitura e É Assim Que Aprendemos, a atenção é o primeiro dos quatro pilares da aprendizagem, fundamental para que o conhecimento seja processado profundamente, complementando o engajamento ativo, o feedback de erros e a consolidação. Sem atenção, nada é devidamente registrado. Sem atenção, nada de memória, nada de inteligência.

Para reverter esse cenário, é urgente redesenhar o cotidiano. Práticas pedagógicas intencionais e ambientes propícios são essenciais. A médica e educadora Maria Montessori, pioneira da pedagogia moderna, já defendia a criação de “ambientes preparados” – espaços organizados que convidam à exploração livre e promovem o foco sustentado. Pensadores da educação John Dewey reforçam que o interesse do estudante é o motor para a construção de conhecimento, o que demanda ambientes que promovam o diálogo.

Estratégias pedagógicas

A atenção, de fato, é uma habilidade que pode ser aprendida e construída. Fanny Sznelwar Minerbo e Beatriz Peres Rios, especialistas da Educação Básica, defendem que desenvolver o foco exige práticas intencionais como rotinas claras, ambientes organizados e materiais acessíveis. Elas sugerem técnicas para preparar o cérebro, como respiração guiada, música calma, pausas estratégicas e a aplicação de blocos de atenção, a exemplo da técnica Pomodoro.

Cultivar a atenção, portanto, implica criar experiências que combinem vínculo, participação e sentido, elementos cruciais para uma aprendizagem viva e significativa. O cérebro é plástico e se adapta ao ambiente; contextos que equilibram liberdade e estrutura, ação e pausa, concentração e descanso, oferecem o terreno fértil para que a curiosidade se transforme em reflexão e, consequentemente, em aprendizagem relevante.

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