Não foi à academia hoje? Culpe o “desconto hiperbólico”
Pesquisa aponta que mecanismos cerebrais e fatores emocionais explicam por que a maioria das pessoas não consegue se exercitar
Todo mundo está careca de saber (vou escrever antes que eu fique careca ou cancelem esta frase) dos benefícios da atividade física para uma vida mais longa e mais saudável. Mesmo assim, tudo é desculpa para não sair do sofá e, influenciadores à parte, o sedentarismo continua a ser a religião mais praticada do mundo.
Um texto publicado em 2026 na revista Sports Medicine and Health Science salva as aparências e indica que o problema não está no desconhecimento, mas na forma como o cérebro humano processa recompensas e toma decisões — e que as diretrizes públicas de saúde ignoram essa dinâmica.
Como diria Homer Simpson, a culpa é minha e eu coloco em quem eu quiser.
O cérebro no centro do problema
O estudo, intitulado “Base comportamental humana para recomendar mudanças nas diretrizes de atividade física”, defende que o comportamento humano não opera exclusivamente pela lógica (conte-me novidades).
Saber que algo faz bem não é condição suficiente para fazê-lo. Segundo a pesquisa, quase metade das pessoas que declaram intenção de se exercitar não transforma esse propósito em ação.
A explicação passa por um fenômeno chamado “desconto hiperbólico”. O mecanismo faz com que o cérebro valorize recompensas imediatas em detrimento de benefícios futuros.
Na prática, atividades (não exatamente físicas) como navegar em redes sociais ou assistir a séries oferecem satisfação instantânea — o que as torna competidoras mais eficientes do que metas como prevenir doenças ou aumentar a longevidade, objetivos que só se materializam no longo prazo.
Já o exercício físico envolve custos que se manifestam de imediato: esforço, tempo, desconforto e, em muitos casos, gasto financeiro. Já os ganhos mais valorizados ficam adiados. Essa assimetria temporal desequilibra a balança a favor da inação.
A experiência durante o treino define a continuidade
Além da questão das recompensas, o artigo destaca outro fator frequentemente ignorado pelas campanhas de saúde pública: o que o praticante sente durante a atividade, e não apenas depois dela.
Segundo os pesquisadores, experiências positivas ao longo do exercício aumentam de forma expressiva as chances de o comportamento se repetir. O caminho inverso também é verdadeiro — sensações de vergonha, desconforto ou inadequação tendem a gerar rejeição duradoura.
O fenômeno é descrito no estudo como “memória afetiva” (saudades da suã de porco da minha mãe…). Trata-se de um registro emocional que orienta, muitas vezes de forma automática, a decisão de repetir ou evitar determinada prática. Motivações ligadas à saúde, à estética ou ao condicionamento físico são importantes para o início da prática, mas insuficientes para sustentá-la ao longo do tempo.
Contexto social e o paradoxo do trabalho físico
Fatores estruturais (sempre as estruturas) contribuem para o quadro de inatividade. A urbanização, o uso intenso de tecnologias e a redução do esforço físico nos deslocamentos e no ambiente de trabalho tornaram o cotidiano de grande parte da população mecanicamente mais estático — independentemente da vontade individual.
Há também uma distinção que o artigo considera relevante: nem toda movimentação física produz os mesmos efeitos (suspeitei desde o princípio). Segundo os pesquisadores, esforços físicos repetitivos no contexto profissional, marcados por baixa autonomia e desgaste elevado, não necessariamente geram os benefícios associados à atividade praticada no lazer. Esse fenômeno é chamado de “paradoxo da atividade física”.
Elaboro minha versão do paradoxo: as horas a mais de vida que os exercícios físicos supostamente me oferecem serão gastas fazendo os próprios exercícios físicos. É como um pai que dá dinheiro para que o filho compre o presente do dia dos pais. Sei que estou errado, mas é divertido estar errado.
Reorientação das recomendações
Com base nas evidências reunidas, o comentário científico defende uma mudança de abordagem nas políticas públicas de saúde. De acordo com o estudo, as diretrizes atuais concentram esforços em informar quantidade e frequência mínimas de exercício, sem considerar como as pessoas efetivamente vivenciam essa prática.
A proposta dos pesquisadores é incorporar às recomendações dimensões como prazer, contexto social e benefícios percebidos no curto prazo — entre eles, melhora do humor, redução da ansiedade e sensação de bem-estar, que surgem já durante a atividade. A percepção de que o exercício “vale a pena agora” pode ser mais eficaz para estimular a aderência do que a promessa de ganhos futuros para a saúde.
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