Doenças neurológicas envolvem falha imune generalizada
Pesquisa mapeou mais de 9 mil autoanticorpos em amostras de pacientes com Alzheimer, Parkinson e esclerose múltipla
Um estudo conduzido na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo revelou que o sistema imunológico de pacientes com doenças neurodegenerativas não direciona seus ataques a um único ponto do sistema nervoso, mas age de forma ampla e simultânea sobre as redes de conexão entre neurônios.
Os resultados, publicados no periódico científico iScience, foram obtidos a partir da análise de dados de quase 600 amostras de sangue e do rastreamento de mais de 9 mil autoanticorpos extraídos de bancos de dados públicos.
O que são autoanticorpos e por que importam
Autoanticorpos são proteínas produzidas pelo sistema imune que, por falha de regulação, voltam-se contra células, tecidos ou órgãos do próprio organismo. No contexto das doenças neurodegenerativas, a pesquisa mostrou que essas moléculas não têm um alvo fixo, como se supunha.
Segundo Júlia Nakanishi Usuda, bolsista da Fapesp e uma das autoras do estudo, “nessas doenças um anticorpo não ataca apenas uma região específica da conexão entre os neurônios [sinapse], como um ladrão invadindo uma porta. Trata-se de um ataque sistêmico, como metralhar uma casa inteira”.
O trabalho identificou ainda o que os pesquisadores chamam de “assinaturas dos autoanticorpos”, padrões que podem ser associados tanto ao estado imunológico do paciente quanto a sintomas específicos de cada doença.
Implicações para o tratamento
A descoberta questiona a lógica das abordagens terapêuticas atuais, que tendem a mirar alvos moleculares isolados — como as placas de beta-amiloide no Alzheimer.
O coordenador da pesquisa, Otávio Cabral-Marques, professor da FM-USP, explicou a limitação dessa estratégia com uma analogia: “Usamos como analogia uma casa cheia de portas e janelas em que se gastam todos os esforços para proteger e deixar trancada apenas uma delas. Mas acontece que o ladrão [o sistema imune desregulado] está armado com uma metralhadora disparando contra todas as outras portas”.
Com base nos resultados, a equipe propõe que futuros tratamentos priorizem o bloqueio amplo da resposta autoimune, em vez de intervenções pontuais.
No caso do Alzheimer, os dados reforçam experimentos recentes com camundongos que apontam melhora das conexões neurais associada à redução dos linfócitos B, células responsáveis pela fabricação de anticorpos.
Os pesquisadores reconhecem que o estudo é de ciência de dados e ainda precisa ser validado em testes laboratoriais e em organismos vivos antes de qualquer aplicação clínica.
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