No país dos juros altos, recuperações judiciais são recorde e mudam de perfil
Brasil tem mais de 6,3 mil empresas em reestruturação e estudo identifica causas desse número elevado
O Brasil encerrou o primeiro semestre de 2026 com 6.341 empresas em recuperação judicial (RJ). Os dados, compilados pelo Monitor RGF-BizDoc, mostram que a insolvência se encontra em nível recorde, mas pode estar desacelerando desde junho. Um único mês não permite afirmar que o ciclo mudou, mas representa um sinal positivo, a ser verificado nos próximos trimestres.
O Monitor foi elaborado pelo economista Cláudio Damasceno, sócio da consultoria RGF. Ele abarca todos os 26,7 milhões de empresas ativas no país. Além das RJs, também verifica os números de falências (estoque de 2732 casos, com 66 novas ocorrências no semestre) e recuperações extrajudiciais. Essas últimas são em volume pequeno – 6 ocorrências desde o início de 2025 – mas envolvem muito dinheiro: R$ 75 bilhões em passivos reestruturados.
Por que isso interessa
Além de registrar o recorde, o estudo identifica os fatores, não apenas econômicos, que moldam o cenário brasileiro. A pressão dos juros elevados continua sendo a principal causa de deterioração da saúde empresarial, mas os processos de recuperação também são reflexo de decisões recentes do Judiciário e de novas estratégias jurídicos das companhias.
Grandes grupos passaram a preferir os procedimentos mais flexíveis da recuperação extrajudicial; pequenas empresas recorrem cada vez mais à RJ; e a Fazenda ganhou o direito de requerer a falência de negócios para cobrar dívidas fiscais. Entender essas mudanças no ambiente institucional é tarefa relevante para gestores e profissionais que atuam na interface entre as empresas e o poder público.
Panorama
Juros: o ambiente macroeconômico continua dificultando a vida das empresas. Embora o Banco Central tenha iniciado um ciclo de redução da Selic – nesta quarta, 5, baixou a taxa de 14,25% para 14% ao ano –, o juro real permanece próximo de 9% ao ano, resultando em pagamentos incompatíveis com a geração de caixa de muitas empresas alavancadas. Ao mesmo tempo, o crédito continua seletivo, com spreads elevados e maior exigência de garantias.
O relatório lembra que há uma defasagem de 12 a 18 meses entre a redução dos juros e seus efeitos sobre as estatísticas de insolvência. Por isso, mesmo num cenário de queda gradual da Selic, a expectativa é que as recuperações judiciais permaneçam elevadas ao longo do segundo semestre de 2026, com melhora mais consistente apenas em 2027.
Novos instrumentos: proporcionalmente, grandes companhias continuam sendo as que mais recorrem à recuperação judicial. Mas esse deixou de ser o único instrumento relevante para reorganização financeira de empresas desse tipo. Os maiores casos corporativos do semestre — Raízen (R$ 65 bilhões), GPA (R$ 4,6 bilhões) e Oncoclínicas (R$ 5,1 bilhões) — foram tratados pela via da recuperação extrajudicial.
Ao mesmo tempo, o recurso à RJ acelerou entre micro, pequenas e médias empresas. Desde 2023, a incidência entre microempresas mais que dobrou, enquanto recuou entre grandes grupos. A dificuldade crescente das empresas menores para financiar capital de giro ajuda a explicar o fenômeno. Mas a disseminação do conhecimento sobre essa ferramenta jurídica também importa. Hoje, há escritórios de advocacia de todos os tamanhos aptos a conduzir esse processo.
Lupa
Segundo o Monitor, o desenvolvimento institucional mais importante do semestre está na jurisprudência. Em fevereiro, a Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça reconheceu que a Fazenda Pública pode requerer a falência de devedores quando a execução fiscal se mostrar ineficaz. Na prática, a falência passa a funcionar também como instrumento de cobrança tributária.
Firmado no caso Casa de Carnes, de Sergipe, esse entendimento teve grandes testes nas recentes recuperações judiciais de Victor Hugo e Dolly. Para empresas com elevado passivo tributário, trata-se de uma mudança crucial na avaliação de risco jurídico e das estratégias de negociação com o Fisco.
“A Fazenda vinha tentando emplacar essa tese há tempos e há boa chance de que o STF a fixe definitivamente”, diz Damasceno. “Com isso, negligenciar a gestão fiscal pode levar a uma RJ.”
Mapa do risco
O Monitor identifica diferenças relevantes entre setores da economia.
O número de RJs no agronegócio cresceu 66% em doze meses. Isso decorre de uma crise financeira, provocada pela combinação de crédito caro, necessidade intensiva de capital de giro no setor, volatilidade dos preços internacionais e riscos climáticos.
O comércio concentra o maior estoque absoluto de empresas em recuperação judicial, enquanto transporte e logística aparecem entre os segmentos de crescimento mais acelerado.
Na outra ponta, a pressão parece diminuir no setor de construção, enquanto energia registrou poucos casos novos, tendo como principal destaque a conclusão da recuperação judicial da Light.
Radar de propostas políticas
Problemas de gestão sempre estão entre os fatores que acarretam processos de recuperação judicial e cada empresa precisa fazer o seu próprio diagnóstico. Mas fatores conjunturais têm peso determinante e, num período eleitoral, os empresários devem estar atentos às propostas dos candidatos. Algumas delas podem influir diretamente na evolução das recuperações judiciais e das falências.
Política fiscal: plataformas que proponham medidas capazes de reforçar a sustentabilidade das contas públicas podem contribuir para reduzir prêmios de risco e criar condições para juros estruturalmente menores. Em sentido oposto, propostas que impliquem deterioração persistente do quadro fiscal tendem a dificultar esse processo.
Política monetária e autonomia do Banco Central: propostas que aumentem a previsibilidade da política monetária podem favorecer um ambiente de crédito menos restritivo, enquanto iniciativas que ampliem incertezas sobre o controle da inflação podem produzir o efeito contrário.
Mercado de crédito: vale acompanhar propostas voltadas à ampliação das fontes privadas de financiamento, fortalecimento das garantias, desenvolvimento do mercado de capitais e redução estrutural do custo do crédito. Também devem ser observadas iniciativas de expansão do crédito público subsidiado, avaliando tanto seus impactos fiscais quanto sua capacidade efetiva de fazer o dinheiro chegar às empresas.
Leis e regulamentos: mudanças na Lei de Recuperação Judicial, aperfeiçoamento dos mecanismos de negociação tributária ou simplificação dos procedimentos para micro e pequenas empresas podem alterar significativamente o custo e a velocidade das reestruturações corporativas.
Resumo da ópera
Segundo o Monitor RGF-BizDoc, o ambiente em que transcorrem os processos de recuperação judicial está mudando. O ritmo de crescimento dos números desacelerou e pode sinalizar uma transição de fase no economia. Mas a mudança ocorre simultaneamente a transformações importantes na arquitetura jurídica das reestruturações, no perfil das empresas afetadas e nas estratégias adotadas pelos grandes grupos corporativos.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)