Mercado ouve ideias e não compra os candidatos
Empresas devem contar com o risco de que o ceticismo da Faria Lima com a política produza efeitos ruins para os negócios
Nos últimos dias, dois formuladores de propostas de governo para Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) percorreram a Faria Lima em diálogos com bancos, corretoras e gestores de recursos. O petista José Sergio Gabrielli e a bolsonarista Daniella Marques ofereceram um vislumbre das ideias que circulam nas duas campanhas.
Por que isso importa
A combinação entre os dados de pesquisas eleitorais privadas e a percepção sobre os rumos da política econômica em 2027 influencia decisões de investimento, concessão de crédito e preços de ativos, incluindo juros futuros.
O que disse Daniella – e reações
Ex-presidente da Caixa Econômica, Daniella Marques é cotada para um cargo importante na equipe de Flávio Bolsonaro, na economia ou até mesmo como vice. Ela apresentou ao setor financeiro uma agenda centrada em ajuste fiscal e redução do tamanho da máquina pública. Sustentou que o projeto do PL pretende restaurar a confiança dos investidores e criar condições para redução estrutural dos juros. A mensagem converge com propostas recentemente divulgadas pelo ex-ministro Adolfo Sachsida para a campanha de Flávio, baseadas em responsabilidade fiscal, reforma do Estado, segurança jurídica, privatizações e fortalecimento do investimento privado.
Trata-se da agenda liberal que o setor financeiro esperava encontrar em uma candidatura à direita. O problema é outro: dúvida sobre a aptidão política de Flávio Bolsonaro para implementar reformas dessa magnitude.
O que disse Gabrielli – e reações
O ex-presidente da Petrobras e coordenador do plano de governo de Lula, José Sergio Gabrielli defendeu ampliar a política de valorização do salário mínimo, fortalecer bancos públicos, utilizar instrumentos de controle de capitais para reduzir volatilidade cambial, formar estoques reguladores de alimentos e ampliar a tributação sobre as rendas elevadas. Também argumentou que o ajuste fiscal não deve ser tratado como objetivo em si mesmo e relativizou a centralidade da dívida pública, atribuindo o principal problema fiscal ao desenho das emendas parlamentares.
Ciente da rejeição a essas ideias no mercado financeiro, o PT se apressou a desautorizar Gabrielli, informando que ele não é porta-voz da economia. O partido também enfatizou que não existe programa econômico fechado e reafirmou compromisso com responsabilidade fiscal.
Assim como no caso do bolsonarismo, o episódio não trouxe novidades para a Faria Lima. Apenas confirmou as suas suspeitas: caso Lula se reeleja, haverá forte resistência no PT à realização das reformas profundas que o setor financeiro, mais do que desejar, considera indispensáveis. Ainda que figuras como Fernando Haddad e Dario Durigan, nominalmente “mais moderadas”, pareçam vencer o debate interno no partido, nenhum ajuste será feito na intensidade necessária.
Daniella Marques apresentou uma agenda econômica bem vista pelo mercado, mas não espantou as dúvidas sobre a capacidade de Flávio Bolsonaro para concretizá-la.
Sergio Gabrielli reafirmou a crença de que o PT não vai realizar reformas amplas, especialmente um ajuste fiscal.
Nenhuma das duas candidaturas inspirou confiança ou esperança. Com isso, empresários e executivos devem contar com a possibilidade de que o ceticismo do mercado financeiro se reflita em indicadores econômicos desfavoráveis aos negócios nos próximos meses.
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