Lula está atento ao risco de estagflação em 2027?
Aumentam os alertas de economistas e instituições financeiras, mas governo parece alheio a risco de economia parada e com preços altos
O alerta sobre o risco de estagflação no Brasil em 2027 está se difundindo entre economistas e instituições financeiras. O Itaú apresentou o cenário mais preocupante, divulgado pela Folha de S. Paulo e pela Veja: reduziu sua projeção de crescimento do PIB de 1,2% para apenas 0,5%, elevou a estimativa de inflação de 4,6% para 6,1% e passou a prever a Selic em 13,75% durante todo o próximo ano.
João Peixoto, CEO da Ouro Preto Investimentos, previu em entrevista à IstoÉ Dinheiro uma recessão a partir de meados de 2027, agravada pelas dificuldades das empresas para refinanciar suas dívidas. No Poder360, o economista Carlos Thadeu de Freitas Gomes também advertiu para o risco de estagflação, associando-o à persistência dos desequilíbrios fiscais.
Não há consenso. A mediana das projeções do mercado no boletim Focus de 30 de outubro ainda apontava crescimento de 1,2% e inflação de 4,76% em 2027. Em reportagem de O Brasilianista, analistas como Gabriel Magno, da AW Capital, reconheceram a deterioração das perspectivas, mas consideraram relativamente baixa a probabilidade de estagflação.
A decisão do Copom, na quarta-feira, 4, tornou mais urgente a discussão que já vinha ocorrendo. O Banco Central manteve a Selic em 13,75%, reconheceu uma desaceleração da atividade mais intensa que a esperada e elevou de 3,2% para 3,5% sua projeção de inflação. A economia perde força, mas a inflação continua resistente.
Por que isso interessa
Estagflação é a combinação de inflação elevada com estagnação econômica e enfraquecimento do mercado de trabalho. É um dos cenários mais difíceis para a política econômica: juros altos ajudam a combater a inflação, mas também restringem o crédito, o consumo e o investimento.
Para as empresas, significa custos elevados, demanda fraca e dificuldades de financiamento. Para as famílias, perda de poder de compra e maior dificuldade para encontrar emprego. O governo, por fim, vê reduzida a margem de manobra para estimular a economia sem agravar desequilíbrios.
Panorama
Os sinais de alerta aparecem em diferentes frentes. A deterioração das expectativas fiscais após a reeleição de Lula provocou forte reação nos mercados, com desvalorização do real e disparada dos juros futuros. A perspectiva de crescimento da dívida pública continua sendo uma das principais fontes de preocupação.
A desvalorização cambial pode encarecer insumos importados e combustíveis, enquanto os juros elevados comprimem o consumo e os investimentos. Mudanças tributárias e nos custos trabalhistas também aparecem entre os fatores de risco considerados pelos analistas. O Itaú incorporou esses elementos às suas projeções para 2027.
A fragilidade das contas públicas torna o quadro mais delicado. A necessidade de financiar uma dívida crescente pressiona os juros de longo prazo e dificulta a recuperação da confiança. Empresas e famílias, já bastante endividadas, perdem acesso ao crédito.
A estagflação não é inevitável. A desaceleração da demanda tende, por si só, a aliviar os preços. O risco é que pressões cambiais, fiscais e de custos anulem esse alívio, mantendo a inflação elevada mesmo com crescimento próximo de zero.
Lupa
Lula está alerta para o risco de estagflação? A reunião que realizou nesta quinta-feira, 5, com economistas próximos ao PT sugere que não. Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, houve convergência sobre o diagnóstico e os caminhos a seguir – até porque os convidados pensam todos da mesma maneira. Mas ainda não foram adotadas medidas específicas.
Segundo a Folha de S.Paulo, uma das propostas em estudo é modificar o arcabouço fiscal para tornar duradouros os efeitos dos contingenciamentos. Bloqueios de despesas mantidos até o fim de um exercício reduziriam também o limite de gastos do ano seguinte.
A equipe econômica avalia ainda permitir o congelamento de determinadas despesas obrigatórias, perseguir efetivamente o centro da meta fiscal – e não apenas o piso da margem de tolerância, como vem acontecendo – e flexibilizar parcialmente os pisos de saúde e educação. Outras possibilidades incluem o combate aos supersalários e mudanças na Previdência dos militares.
Essas medidas podem contribuir para reduzir o risco de estagflação? Sim, na medida em que um ajuste fiscal crível, que ajude a conter a dívida pública, tende a melhorar as expectativas de inflação e abrir espaço para juros menores.
O risco é o remédio escolhido ser fraco demais. Reduzir o limite de gastos não significa necessariamente conter o crescimento das despesas obrigatórias. O superávit primário de 0,5% do PIB em 2027, previsto pelo governo, ainda está longe do nível que economistas consideram necessário para estabilizar a dívida.
Além disso, o risco de estagflação não decorre apenas do desequilíbrio fiscal. Envolve pressões cambiais, custos de produção, investimentos enfraquecidos e dificuldades para ampliar a produtividade. Não há notícia de uma estratégia integrada para enfrentar esses outros fatores.
Lula resiste a medidas que possam ser interpretadas como abandono das muitas benesses que prometeu na eleição. Sua equipe procura apresentar o ajuste como condição para preservar as políticas sociais.
A reunião indica que o governo não tem resposta abrangente para o risco de estagflação em 2027. Quanto mais tempo levar para defini-la, menor poderá ser sua margem de manobra.
Radar empresarial
O primeiro indicador a acompanhar é a trajetória das expectativas de inflação, para 2027 e 2028. Sua persistência acima da meta deixará o Banco Central com pouco espaço para reduzir os juros, mesmo com a economia enfraquecida.
Também merecem atenção os juros futuros, o câmbio, a evolução do crédito e os indicadores de atividade e emprego. Em conjunto, eles permitirão avaliar se a desaceleração está contribuindo para controlar a inflação ou se o país se aproxima de uma combinação mais preocupante de crescimento baixo e preços resistentes.
No campo político, as empresas devem observar o impacto projetado do futuro pacote fiscal sobre a dívida pública e a disposição do governo de rever regras que impulsionam as despesas obrigatórias.
Importa também verificar se o ajuste preservará investimentos capazes de melhorar a produtividade. A agenda empresarial não deve se limitar à defesa de juros menores. É preciso cobrar uma política fiscal sustentável e medidas que ampliem a capacidade produtiva, reduzam custos e melhorem as condições de investimento.
Resumo da ópera
A estagflação é um risco em 2027. Lula começou a discutir alternativas. A questão é se aceitará as decisões necessárias para evitar que seu quarto mandato comece com uma economia praticamente parada, preços em alta e juros persistentemente elevados.
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