Miguel Sanches Neto: "Uma Sala Cheia de Óculos Dos Judeus Mortos"

24.10.2026

logo-crusoe-new
O Antagonista
Vamos eleger poetas
avatar
Miguel Sanches Neto
5 minutos de leitura 23.04.2021 17:04 comentários
Opinião

Vamos eleger poetas

Em visita ao Museu do Holocausto, em Auschwitz, das coisas que mais me impressionaram foi uma sala cheia de óculos dos judeus mortos. É claro que aqueles objetos poderiam vir de banqueiros, de empresários etc., mas eram em grande maioria, pelos registros históricos de perseguição, de professores, escritores, artistas e intelectuais em geral. Parei diante da vitrine por um tempo mais longo e fiquei imaginando que o grande perigo daquele grupo era o poder de ler...

avatar
Miguel Sanches Neto
5 minutos de leitura 23.04.2021 17:04 comentários 0
Vamos eleger poetas
Foto: Państwowe Muzeum Auschwitz-Birkenau

Em visita ao Museu do Holocausto, em Auschwitz, das coisas que mais me impressionaram foi uma sala cheia de óculos dos judeus mortos. É claro que aqueles objetos poderiam vir de banqueiros, de empresários etc., mas eram em grande maioria, pelos registros históricos de perseguição, de professores, escritores, artistas e intelectuais em geral. Parei diante da vitrine por um tempo mais longo e fiquei imaginando que o grande perigo daquele grupo era o poder de ler, de refletir e a coragem de expressar-se. Na hora. Lembrei-me do filósofo Walter Benjamin, que não chegou a ser preso pelos nazistas porque se suicidou na fronteira entre França e Espanha, em um ato de desespero. Vi vários óculos iguais aos que ele usava.

Este pequeno insight na visita a Auschwitz serve agora como explicação para o ódio que se exerce contra todo homem e toda mulher que ousa pensar em um país transformado em memecracia – uma sociedade dominada por memes que circulam instantaneamente com cancelamentos ou falsos endeusamentos. Enxergar além destas imagens e frases chapadas se tornou um crime a ser punido.

A ideia de que todo intelectual que não repete o beabápolítico do momento é um comunista, um bon-vivant, um parasita, um perigo para a nação desenvolveu uma energia antípoda entre os equipamentos públicos e a inteligência nacional. Instituições que antes contaram com grandes nomes de nossa cultura, tanto da erudita quanto da popular, hoje estão nas mãos de burocratas despreparados.

Como é possível constatar isso?

Pela troca constante de direções em diversos órgãos culturais e educacionais. Alguns já estão no seu sexto dirigente, em dois anos e pico de governo. Um índice de rotatividade que lembra o de hotéis. Nunca antes a ideia de que o cargo é passageiro foi tão literal. Virou um modismo de falsa humildade (e de cafonice) dizer estou como diretor(a) disso ou daquilo. O tempo foi acelerado, a pessoa tem que se apresentar assim agora: até o presente momento ainda estou tal coisa.

O principal papel da classe intelectual e artística é o de divergir. E não se pode dirigir equipamentos culturais divergindo das palavras de ordem. Para chegarmos a este estado de depreciação de todo um vasto grupo, que é o que o Brasil tem de melhor, suas mentes criativas, procede-se um linchamento de toda pessoa que pense a realidade.

Se não bastasse esta negação de artistas e intelectuais, tão atingidos profissionalmente pela pandemia, a reforma tributária traz à baila o imposto sobre o livro. A alegação que se propaga é de uma hipocrisia a toda prova. A de que pobre não compra livro. Quem compra livro, então, seria uma classe abastada que não trabalha e tem tempo para ler. Ou seja: sujeitos não produtivos. Além de atacar diretamente as editoras, que já enfrentam dificuldades para vender bons títulos, compromete ainda mais a sobrevivência dos escritores. Desde os anos 1990, o autor brasileiro, nos mais diversos gêneros, começava a ter condições de ser apenas escritor – e este apenas significava escrever para jornais e revistas (que reduziram espaços a tais colunistas), dar palestras e participar de eventos (que, em crise pela demonização das leis de incentivo, agora estão praticamente suspensos), entre outras tarefas, como organizar livros e fazer traduções. O imposto sobre o livro é mais uma volta no parafuso com o propósito de silenciar os intelectuais, obrigando-os a procurar outras ocupações que lhe roubem o tempo de escrever. Como muitos têm uma carreira nas universidades públicas brasileiras, isto também explica o ódio contra tais instituições e a tentativa de controle de professores e pesquisadores, que são permanentemente desqualificadospelos grupos hegemônicos.

Operou-se um divórcio litigioso entre a classe artística/intelectual e a classe dirigente, e quem sai em prejuízo é o país. Pois o escritor é um ser criativo por excelência. Na sua narrativa Vamos Comprar um Poeta (Dublinense, 2020), o ficcionista português Afonso Cruz mostra como os versos aparentemente sem sentido deste ser tido como supérfluo geram soluções estratégicas para a economia. Ele define poeta, a partir de uma das acepções dadas por Samuel Johnson, como “alguém que inventa”. Contra uma manada que repete memes, precisamos defender os criadores: “A ficção salva-nos. Literalmente. Por imaginarmos, conseguimos saber o que fazer”, afirma Afonso Cruz. O atraso das políticas públicas do atual governo vem do fato de o comando de muitas instituições estar com pessoas que não sabem o que fazer. Sabem somente obedecer.

Miguel Sanches Neto é escritor, autor, entre outros livros, de A Bicicleta de Carga (Companhia das Letras, 2018).

  • Mais lidas
  • Mais comentadas
  • Últimas notícias
1

Lula diz que governo vai “acabar com a polícia”

Lula diz que governo vai “acabar com a polícia”
2

“Qual o gostinho desse whisky, Lula?”, questiona Flávio sobre garrafa de R$ 500 mil

“Qual o gostinho desse whisky, Lula?”, questiona Flávio sobre garrafa de R$ 500 mil
3

“Qual é a bondade decorada que você vai fazer no Nordeste?”

“Qual é a bondade decorada que você vai fazer no Nordeste?”
4

“Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos”, diz Lula

“Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos”, diz Lula
5

Caso Ana Clara entra em debate entre Lula e Flávio sobre segurança pública

Caso Ana Clara entra em debate entre Lula e Flávio sobre segurança pública
6

Flávio acusa governo Lula de afundar país em dívida de R$ 11 trilhões

Flávio acusa governo Lula de afundar país em dívida de R$ 11 trilhões
7

Moraes bloqueia R$ 6 bilhões de Willer Tomaz

Moraes bloqueia R$ 6 bilhões de Willer Tomaz
8

Flávio questiona quem banca Lulinha em bairro de luxo na Espanha

Flávio questiona quem banca Lulinha em bairro de luxo na Espanha
9

Alceu Valença repudia uso de “Anunciação” em vídeo de ato pró-Flávio

Alceu Valença repudia uso de “Anunciação” em vídeo de ato pró-Flávio
10

A Meta falhou e o TSE também

A Meta falhou e o TSE também
1

Renan Santos chama eleitor de Flávio de “humilhado” e critica voto no 22

Renan Santos chama eleitor de Flávio de “humilhado” e critica voto no 22
2

Amoêdo declara voto em Lula no 2º turno e diz que será oposição

Amoêdo declara voto em Lula no 2º turno e diz que será oposição
3

Crusoé: Esposa de Trump negocia cessar-fogo em cidade da Ucrânia

Crusoé: Esposa de Trump negocia cessar-fogo em cidade da Ucrânia
4

Justiça manda Erika Hilton apagar falsa acusação de estupro contra Gaspar

Justiça manda Erika Hilton apagar falsa acusação de estupro contra Gaspar
5

Janones não vai ao debate da Globo

Janones não vai ao debate da Globo
6

Artistas estrangeiros declaram apoio a Lula nas redes

Artistas estrangeiros declaram apoio a Lula nas redes
7

Daniel Ortega tenta criar “sucessão dinástica” na Nicarágua

Daniel Ortega tenta criar “sucessão dinástica” na Nicarágua
8

“Lula, quando você foi ao supermercado?”, questiona Flávio em debate

“Lula, quando você foi ao supermercado?”, questiona Flávio em debate
9

Crusoé: Realtime mostra Flávio 4 pontos à frente de Lula

Crusoé: Realtime mostra Flávio 4 pontos à frente de Lula
10

"Não adianta nada você dar com uma mão e tirar com nove dedos", diz Flávio

"Não adianta nada você dar com uma mão e tirar com nove dedos", diz Flávio
1

Flávio questiona quem banca Lulinha em bairro de luxo na Espanha

Flávio questiona quem banca Lulinha em bairro de luxo na Espanha
2

“A vida do Lula é um laranjal”, diz Flávio em debate

“A vida do Lula é um laranjal”, diz Flávio em debate
3

“Qual o gostinho desse whisky, Lula?”, questiona Flávio sobre garrafa de R$ 500 mil

“Qual o gostinho desse whisky, Lula?”, questiona Flávio sobre garrafa de R$ 500 mil
4

Lula diz que governo vai “acabar com a polícia”

Lula diz que governo vai “acabar com a polícia”
5

Caso Ana Clara entra em debate entre Lula e Flávio sobre segurança pública

Caso Ana Clara entra em debate entre Lula e Flávio sobre segurança pública
6

“Prometeu picanha e entregou abóbora”, diz Flávio a Lula

“Prometeu picanha e entregou abóbora”, diz Flávio a Lula
7

“Foi o SUS que salvou o presidente Jair Bolsonaro”

“Foi o SUS que salvou o presidente Jair Bolsonaro”
8

Flávio acusa governo Lula de afundar país em dívida de R$ 11 trilhões

Flávio acusa governo Lula de afundar país em dívida de R$ 11 trilhões
9

Flávio cobra desculpas de Lula por reajuste de R$ 3 por dia no Bolsa Família

Flávio cobra desculpas de Lula por reajuste de R$ 3 por dia no Bolsa Família
10

“Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos”, diz Lula

“Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos”, diz Lula

Tags relacionadas

artigo cultura brasileira memes Miguel Sanches Neto Museu do Holocausto O Antagonista
< Notícia Anterior

Opositores confirmam ‘superpedido’ de impeachment de Bolsonaro

23.04.2021 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

Um dia após Cúpula do Clima, Bolsonaro corta verba para o ambiente

23.04.2021 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Miguel Sanches Neto

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (0)

Torne-se um assinante para comentar

Início

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.