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O que os políticos não contaram a você sobre o novo projeto do aborto

Debate sobre o aborto no Brasil tem sido tratado de maneira desrespeitosa, irresponsável e repleta de distorções

Madeleine Lacsko

O debate sobre o aborto no Brasil tem sido tratado de maneira desrespeitosa, irresponsável e repleta de distorções. Por um lado, vemos aqueles que querem equiparar o aborto ao homicídio, criando uma narrativa alarmista que não diminuirá os abortos. Do outro, há quem trate abortos tardios como uma decisão trivial, como se fosse uma ida ao shopping, ignorando a complexidade e o sofrimento envolvidos. Nenhum desses extremos contribui para uma discussão séria e eficaz sobre um tema tão delicado.

Eu sou contra o aborto e acredito que a legislação vigente no Brasil é suficiente sobre este tema. Infelizmente, a questão está sendo debatida de forma desrespeitosa e irresponsável, sem considerar o sofrimento real das pessoas envolvidas.

Primeiramente, o projeto de lei em questão não diz que todo aborto após vinte e duas semanas será considerado homicídio. O artigo 124 menciona que a interrupção de um feto viável pode ser considerada homicídio, mas não define claramente o que seria considerado viável. Isso abre margem para interpretações perigosas, onde um juiz poderia, teoricamente, considerar um feto de quatro semanas como viável, ou até mesmo um de trinta e nove semanas como não viável. A falta de critérios específicos é um dos grandes problemas dessa proposta.

Além disso, o projeto permite que o juiz, ao considerar o aborto como homicídio, possa aplicar ou não a pena, dependendo do sofrimento da mulher. Isso cria uma incerteza jurídica que pode levar a injustiças e decisões arbitrárias. 

Aqueles que acreditam que equiparar aborto a homicídio vai reduzir sua ocorrência estão equivocados. Em 2009, vimos algo semelhante quando todos os crimes sexuais foram equiparados ao estupro, com a promessa de que estupradores teriam punição mais severa. Ocorreu justamente o oposto. Penas de estupradores caíram pela metade pela falta de gradação.

Outro ponto crítico é a questão do aborto em casos de estupro. Há uma preocupação legítima entre conservadores de que muitas mulheres possam alegar falsamente terem sido estupradas para realizar o aborto. No entanto, a realidade é que provar um estupro é extremamente difícil e nem sempre é possível, mesmo quando o crime de fato ocorreu. A proposta de não investigar esses casos para evitar a revitimização da mulher é problemática e não resolve a questão central.

Os abortos tardios, que são extremamente raros e envolvem situações dramáticas, também são tratados de maneira superficial no projeto. A discussão sobre assistolia cardíaca e os aspectos técnicos envolvidos foi mal conduzida, criando confusão e medo desnecessários. Esse tipo de aborto geralmente ocorre em circunstâncias médicas severas e não pode ser simplificado ou tratado de maneira generalizada.

A desinformação e a falta de escuta têm alimentado esse debate polarizado. Os políticos de ambos os lados têm falhado em ouvir e entender as preocupações reais e legítimas de quem vive esse drama. Em vez disso, preferem usar o tema como uma ferramenta de manipulação e polarização.

O Brasil precisa de uma legislação clara, justa e compassiva sobre o aborto, que respeite a complexidade do tema e a dignidade das mulheres envolvidas. Equiparar o aborto ao homicídio ou tratar o aborto tardio de maneira trivial não são soluções eficazes. É fundamental que os políticos e a sociedade em geral abordem essa questão com seriedade e responsabilidade, ouvindo todas as partes envolvidas e buscando um equilíbrio que respeite a vida e os direitos das mulheres.

Como alguém que é contra o aborto, acredito que precisamos encontrar formas de proteger a vida enquanto oferecemos apoio e compaixão às mulheres que enfrentam situações tão difíceis. A maneira como este debate tem sido conduzido até agora não nos levará a uma solução justa e humana nem reduzirá os abortos.

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