O prêmio não prova a narrativa
Até que ponto uma obra como 'NAZA' é celebrada pelo que revela, e até que ponto por confirmar aquilo em que sua plateia já acredita?
Por Nira Broner Worcman*
Talvez seja cedo para falar em Oscar, mas a trajetória já parece familiar. NAZA, documentário dos israelenses Rachel Szor e Yuval Abraham, foi recebido no Festival de Veneza com uma ovação de 24,5 minutos e ganhou o Prêmio Especial do Júri. Os dois participaram também de No Other Land, vencedor do Oscar de melhor documentário.
Há uma particularidade importante: NAZA foi produzido pelo Guardian, que também publicou uma extensa reportagem sobre o filme. Filme e reportagem não são histórias independentes. Juntos, mostram como uma acusação percorre o caminho entre fontes anônimas, cinema e cobertura jornalística até adquirir aparência de fato estabelecido.
O documentário se baseia em depoimentos de 24 integrantes ou ex-integrantes anônimos dos serviços militares e de inteligência israelenses. O número impressiona, mas não sabemos quantos corroboram cada acusação, quantos tiveram conhecimento direto dos fatos ou acesso às decisões que descrevem.
Abraham afirma que a morte em massa de palestinos não foi acidental, mas deliberada. São acusações gravíssimas. Mas são acusações.
Uma fonte
É aí que a reportagem do Guardian se torna reveladora. Ao apresentar o filme que ele próprio produziu, o jornal não escreve que NAZA “alega mostrar” um massacre.
Define-o, em sua própria voz, como documentário sobre “um massacre em massa autorizado nos mais altos níveis do governo”. Mas, quando surge a acusação mais extraordinária, a de que teria sido autorizada a morte de até 500 civis para atingir um único integrante do Hamas, reaparece uma velha ferramenta do jornalismo: uma fonte afirma.
Por que a cautela existe nessa frase e desaparece nas outras? “Afirma”, “alega” e “segundo” separam o que foi comprovado daquilo que alguém disse. Há uma complicação: o veículo que deveria preservar essa distinção é também produtor do filme.
Exército israelense
O Exército israelense rejeitou categoricamente as acusações e contestou sua premissa central: a de que a morte de civis tenha sido deliberada, e não consequência de ataques a alvos militares.
Segundo o próprio Exército, sua resposta até agora se baseia nos trechos e no material promocional disponíveis publicamente, porque ainda não teve acesso ao documentário completo. As FDI pediram aos cineastas uma exibição para poder responder integralmente às acusações.
Vinte e quatro depoimentos anônimos não transformam, por si só, acusações em fatos estabelecidos; tampouco uma negativa categórica encerra a questão. É nesse espaço entre acusação, contestação e comprovação que deveria existir o jornalismo.
E existe ainda a etapa seguinte: o prêmio. No Other Land, feito com Basel Adra e Hamdan Ballal, ganhou o Oscar. Agora NAZA sai de Veneza com outro prêmio de prestígio.
Aqui vale uma pergunta incômoda: até que ponto uma obra é celebrada pelo que revela, e até que ponto por confirmar aquilo em que sua plateia já acredita?
O efeito
O efeito já ultrapassa o festival.
Segundo o Ynet, diplomatas israelenses alertam que NAZA pode aumentar a pressão até mesmo sobre governos considerados amigos de Israel, justamente porque seus autores são israelenses e suas acusações se apoiam em depoimentos atribuídos a militares israelenses. O governo e o Exército preparam uma campanha internacional para contestá-las.
Seja qual for a resposta à pergunta sobre o que leva uma obra a ser premiada, a consagração produz um efeito adicional: confere prestígio e autoridade à narrativa e pode ser percebida, aos olhos do público, como um certificado de veracidade.
Esse fenômeno não se limita ao cinema. Em 2026, o Pulitzer de fotografia foi concedido ao palestino Saher Alghorra, colaborador do New York Times, por imagens da devastação e da fome em Gaza.
Entre elas, a de Yazan Abu al-Foul, de dois anos, esquálido, nos braços da mãe.
Outra fotografia mostrava o menino ao lado dos irmãos, que não apresentavam o mesmo quadro. Isso não torna menos real o estado de Yazan. Mostra, porém, que uma imagem, por mais autêntica que seja, não estabelece sozinha as causas daquilo que retrata.
Não é prova
Assim se forma uma cadeia de validação: uma imagem comove, uma acusação circula, uma reportagem a incorpora, uma plateia aplaude, um júri premia. A cada etapa, acrescenta-se legitimidade à anterior, até que questionar a narrativa pareça uma tentativa de negar a realidade.
Se as acusações de NAZA forem comprovadas, as implicações serão graves. Mas, enquanto não se transformarem em fatos estabelecidos, uma palavra continua indispensável: se.
O cinema pode tomar partido. Júris podem premiar as obras que considerarem mais poderosas.
O jornalismo tem outra obrigação: preservar a fronteira entre o que se sabe, o que uma fonte afirma e o que ainda precisa ser provado.
Prestígio não é evidência. Aplauso não é corroboração. E prêmio não é prova.
Nira Broner Worcman é jornalista, CEO da Art Presse Comunicação e autora da edição hors commerce de ‘Enxugando Gelo’ (2025), sobre a cobertura midiática da guerra entre Israel e grupos terroristas.
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