Marilena Chauí entra em lista de professores negros da USP. O que isso significa?

06.10.2026

logo-crusoe-new
O Antagonista
Marilena Chauí entra em lista de professores negros da USP. O que isso significa?
avatar
Madeleine Lacsko
4 minutos de leitura 25.11.2024 20:07 comentários
Narrativas Antagonista

Marilena Chauí entra em lista de professores negros da USP. O que isso significa?

A verdade é que essas políticas, aplicadas de forma tão desordenada, não contribuem para a inclusão

avatar
Madeleine Lacsko
4 minutos de leitura 25.11.2024 20:07 comentários 0
Marilena Chauí entra em lista de professores negros da USP. O que isso significa?
Arte: O Antagonista

A inclusão de Marilena Chaui, uma das figuras mais influentes da esquerda brasileira, na lista de professores negros da FFLCH-USP é mais do que um episódio curioso. Ela simboliza a confusão identitária e o desrespeito ao rigor acadêmico que têm tomado conta de nossas universidades. O caso levanta uma questão que vai além de classificações pessoais: como um espaço que deveria primar pela excelência se tornou palco de contradições tão flagrantes?

Marilena Chaui, com seu histórico de poder e prestígio, jamais precisou de rótulos para se firmar. Sua escolha de se declarar negra não é um ato isolado. Ela reflete uma tendência crescente de transformar a autoidentificação em um recurso político e acadêmico. Essa dinâmica se torna ainda mais absurda quando vemos, no mesmo contexto, uma professora de ascendência japonesa também sendo reconhecida como negra. Enquanto isso, alunos pardos – que deveriam ser contemplados pelas políticas de cotas – enfrentam bancas rigorosas que, muitas vezes, negam suas autodeclarações, mesmo com evidências familiares e culturais de sua origem. São obrigados a recorrer à justiça e comprovar laços familiares para obter vagas por cota. O que explica esses critérios elásticos?

O problema se agrava quando entendemos a origem dessas práticas. A lógica que permite classificar uma pessoa como negra apenas por uma “única gota” de ancestralidade negra, a chamada one drop rule, não nasceu de movimentos antirracistas. Ela foi uma invenção de ideologias supremacistas brancas, como as promovidas pelo Ku Klux Klan nos Estados Unidos. A teoria estabelece que qualquer pessoa com o menor traço de ascendência negra é automaticamente negra, negando a possibilidade de existirem mestiços. Era uma ferramenta de exclusão e segregação, destinada a reforçar uma rígida hierarquia racial e marginalizar quem não fosse “puramente” branco.

No Brasil, país marcado pela miscigenação, adotar essa visão é uma aberração histórica e social. Aqui, ser mestiço não é uma exceção, mas uma realidade majoritária. Uma pesquisa recente do Datafolha mostra que cerca de 60% dos pardos no Brasil se identificam como mestiços, reconhecem em si mesmos uma identidade híbrida, que reflete a complexidade de sua herança familiar. Mas isso é negado por movimentos que insistem em forçar categorias raciais rígidas.

O que está por trás dessa negação? É a tentativa de moldar identidades conforme conveniências ideológicas. Para certos grupos, a mestiçagem é um problema porque dificulta narrativas binárias de opressor e oprimido. Por isso, a insistência em aplicar a lógica do one drop rule de forma acrítica. O resultado é a desvalorização de uma identidade própria, a mestiça, em prol de um enquadramento que serve mais ao discurso do que à realidade das pessoas.

Esse contexto expõe a contradição na USP. Como pode a universidade mais prestigiada do Brasil abraçar essa rigidez ao mesmo tempo em que é flexível ao extremo para seus quadros docentes? Enquanto alunos são submetidos a critérios implacáveis, Marilena Chaui e outros professores conseguem autoidentificar-se como quiserem, sem o mesmo nível de escrutínio. Esse duplo padrão não é apenas uma falta de seriedade, mas um ataque à credibilidade da instituição.

A verdade é que essas políticas, aplicadas de forma tão desordenada, não contribuem para a inclusão. Elas criam uma atmosfera de confusão e ressentimento. Ao negar a complexidade da mestiçagem e aplicar teorias importadas de contextos raciais completamente diferentes do brasileiro, estamos não apenas falhando em enfrentar o racismo, mas também em compreender nossa própria história.

Se a USP e outras universidades desejam liderar o debate sobre questões raciais, precisam fazê-lo com base na realidade, não em modismos ou em lógicas importadas que não fazem sentido no Brasil. Incluir é necessário, e é algo que precisa ser feito com seriedade e respeito ao contexto brasileiro. Caso contrário, o que se cria não é inclusão, mas uma caricatura dela. O preço disso será pago não pelas elites acadêmicas, mas pelos alunos que mais precisam de oportunidades reais.

  • Mais lidas
  • Mais comentadas
  • Últimas notícias
1

De Gleisi a Randolfe, PT perde em diversos estados e nomes históricos ficam de fora

De Gleisi a Randolfe, PT perde em diversos estados e nomes históricos ficam de fora
2

Gleisi perde vaga no Senado para candidatos da direita no Paraná

Gleisi perde vaga no Senado para candidatos da direita no Paraná
3

Kataguiri diz que promessa de renúncia valia para 3%, não 2% de Renan

Kataguiri diz que promessa de renúncia valia para 3%, não 2% de Renan
4

Eleições de 2026 deixam a esquerda brasileira à beira da extinção

Eleições de 2026 deixam a esquerda brasileira à beira da extinção
5

Urnas punem Gilmar, Dino e Moraes

Urnas punem Gilmar, Dino e Moraes
6

Crusoé: O lulismo definitivamente acabou

Crusoé: O lulismo definitivamente acabou
7

Janja e Nikolas Ferreira, o “piá de bosta” de 3 milhões de votos

Janja e Nikolas Ferreira, o “piá de bosta” de 3 milhões de votos
8

Senado terá maioria para impeachment, diz Ranking dos Políticos

Senado terá maioria para impeachment, diz Ranking dos Políticos
9

Ex-bolsonarista que declarou voto em Lula perde reeleição no Rio

Ex-bolsonarista que declarou voto em Lula perde reeleição no Rio
10

Crusoé: Musk volta a postar sobre o Brasil e Moraes

Crusoé: Musk volta a postar sobre o Brasil e Moraes
1

De Gleisi a Randolfe, PT perde em diversos estados e nomes históricos ficam de fora

De Gleisi a Randolfe, PT perde em diversos estados e nomes históricos ficam de fora
2

Lula terá novo “enfoque” no segundo turno, diz presidente do PT

Lula terá novo “enfoque” no segundo turno, diz presidente do PT
3

Campanha de Lula reúne Haddad e ex-candidatos para traçar estratégia

Campanha de Lula reúne Haddad e ex-candidatos para traçar estratégia
4

Senado terá maioria para impeachment, diz Ranking dos Políticos

Senado terá maioria para impeachment, diz Ranking dos Políticos
5

Eleições de 2026 deixam a esquerda brasileira à beira da extinção

Eleições de 2026 deixam a esquerda brasileira à beira da extinção
6

Valdemar diz que Bolsonaro terá participação em eventual governo de Flávio

Valdemar diz que Bolsonaro terá participação em eventual governo de Flávio
7

Crusoé: Erundina se torna a deputada mais velha eleita na história da Alesp

Crusoé: Erundina se torna a deputada mais velha eleita na história da Alesp
8

Quem o PT escolheu como culpado pelo desempenho de Lula no 1º turno?

Quem o PT escolheu como culpado pelo desempenho de Lula no 1º turno?
9

Janja e Nikolas Ferreira, o “piá de bosta” de 3 milhões de votos

Janja e Nikolas Ferreira, o “piá de bosta” de 3 milhões de votos
10

PSOL não atinge cláusula de barreira e perderá acesso ao Fundo Partidário

PSOL não atinge cláusula de barreira e perderá acesso ao Fundo Partidário
1

Flávio Bolsonaro avança na periferia de São Paulo

Flávio Bolsonaro avança na periferia de São Paulo
2

Renan: “Não espere da gente oposição aguerrida ao Flávio”

Renan: “Não espere da gente oposição aguerrida ao Flávio”
3

Lula diz carregar “nas costas” a “promiscuidade” do STF

Lula diz carregar “nas costas” a “promiscuidade” do STF
4

Fachin diz que STF “permanecerá” após eleição de senadores críticos

Fachin diz que STF “permanecerá” após eleição de senadores críticos
5

Pavanato admite “vingança” contra Moraes: “Pode preparar as malas”

Pavanato admite “vingança” contra Moraes: “Pode preparar as malas”
6

Kassio quer julgar soltura de Bolsonaro após eleição

Kassio quer julgar soltura de Bolsonaro após eleição
7

A cartilha do PT para “virar voto” no segundo turno”

A cartilha do PT para “virar voto” no segundo turno”
8

PSOL fica fora da cláusula de barreira e PL chega a 121 deputados

PSOL fica fora da cláusula de barreira e PL chega a 121 deputados
9

Lula já virou depois de perder um 1º turno? Veja o histórico

Lula já virou depois de perder um 1º turno? Veja o histórico
10

Hackers invadem registros e expõem 8,8 milhões na Dinamarca

Hackers invadem registros e expõem 8,8 milhões na Dinamarca

Tags relacionadas

Marilena Chauí
< Notícia Anterior

Lana Del Rey anuncia álbum inédito para 2025

25.11.2024 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

Namorada de Liam Payne revela conversas antigas do cantor

25.11.2024 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Madeleine Lacsko

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (0)

Torne-se um assinante para comentar

Início

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.