Marilena Chauí entra em lista de professores negros da USP. O que isso significa?

07.03.2026

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Marilena Chauí entra em lista de professores negros da USP. O que isso significa?

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Madeleine Lacsko
4 minutos de leitura 25.11.2024 20:07 comentários
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Marilena Chauí entra em lista de professores negros da USP. O que isso significa?

A verdade é que essas políticas, aplicadas de forma tão desordenada, não contribuem para a inclusão

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Marilena Chauí entra em lista de professores negros da USP. O que isso significa?
Arte: O Antagonista

A inclusão de Marilena Chaui, uma das figuras mais influentes da esquerda brasileira, na lista de professores negros da FFLCH-USP é mais do que um episódio curioso. Ela simboliza a confusão identitária e o desrespeito ao rigor acadêmico que têm tomado conta de nossas universidades. O caso levanta uma questão que vai além de classificações pessoais: como um espaço que deveria primar pela excelência se tornou palco de contradições tão flagrantes?

Marilena Chaui, com seu histórico de poder e prestígio, jamais precisou de rótulos para se firmar. Sua escolha de se declarar negra não é um ato isolado. Ela reflete uma tendência crescente de transformar a autoidentificação em um recurso político e acadêmico. Essa dinâmica se torna ainda mais absurda quando vemos, no mesmo contexto, uma professora de ascendência japonesa também sendo reconhecida como negra. Enquanto isso, alunos pardos – que deveriam ser contemplados pelas políticas de cotas – enfrentam bancas rigorosas que, muitas vezes, negam suas autodeclarações, mesmo com evidências familiares e culturais de sua origem. São obrigados a recorrer à justiça e comprovar laços familiares para obter vagas por cota. O que explica esses critérios elásticos?

O problema se agrava quando entendemos a origem dessas práticas. A lógica que permite classificar uma pessoa como negra apenas por uma “única gota” de ancestralidade negra, a chamada one drop rule, não nasceu de movimentos antirracistas. Ela foi uma invenção de ideologias supremacistas brancas, como as promovidas pelo Ku Klux Klan nos Estados Unidos. A teoria estabelece que qualquer pessoa com o menor traço de ascendência negra é automaticamente negra, negando a possibilidade de existirem mestiços. Era uma ferramenta de exclusão e segregação, destinada a reforçar uma rígida hierarquia racial e marginalizar quem não fosse “puramente” branco.

No Brasil, país marcado pela miscigenação, adotar essa visão é uma aberração histórica e social. Aqui, ser mestiço não é uma exceção, mas uma realidade majoritária. Uma pesquisa recente do Datafolha mostra que cerca de 60% dos pardos no Brasil se identificam como mestiços, reconhecem em si mesmos uma identidade híbrida, que reflete a complexidade de sua herança familiar. Mas isso é negado por movimentos que insistem em forçar categorias raciais rígidas.

O que está por trás dessa negação? É a tentativa de moldar identidades conforme conveniências ideológicas. Para certos grupos, a mestiçagem é um problema porque dificulta narrativas binárias de opressor e oprimido. Por isso, a insistência em aplicar a lógica do one drop rule de forma acrítica. O resultado é a desvalorização de uma identidade própria, a mestiça, em prol de um enquadramento que serve mais ao discurso do que à realidade das pessoas.

Esse contexto expõe a contradição na USP. Como pode a universidade mais prestigiada do Brasil abraçar essa rigidez ao mesmo tempo em que é flexível ao extremo para seus quadros docentes? Enquanto alunos são submetidos a critérios implacáveis, Marilena Chaui e outros professores conseguem autoidentificar-se como quiserem, sem o mesmo nível de escrutínio. Esse duplo padrão não é apenas uma falta de seriedade, mas um ataque à credibilidade da instituição.

A verdade é que essas políticas, aplicadas de forma tão desordenada, não contribuem para a inclusão. Elas criam uma atmosfera de confusão e ressentimento. Ao negar a complexidade da mestiçagem e aplicar teorias importadas de contextos raciais completamente diferentes do brasileiro, estamos não apenas falhando em enfrentar o racismo, mas também em compreender nossa própria história.

Se a USP e outras universidades desejam liderar o debate sobre questões raciais, precisam fazê-lo com base na realidade, não em modismos ou em lógicas importadas que não fazem sentido no Brasil. Incluir é necessário, e é algo que precisa ser feito com seriedade e respeito ao contexto brasileiro. Caso contrário, o que se cria não é inclusão, mas uma caricatura dela. O preço disso será pago não pelas elites acadêmicas, mas pelos alunos que mais precisam de oportunidades reais.

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