Márcio Coimbra na Crusoé: Por que o mundo parou de acreditar no Brasil?
A confusão conceitual entre protecionismo e soberania, e entre gestos unilaterais e autonomia estratégica, gera um isolamento progressivo
A retórica grandiloquente de “soberania” e “multilateralismo” que ornamenta o discurso diplomático brasileiro não resiste a mais elementar verificação empírica.
Os dados desnudam uma patologia de incoerência estratégica, em que a aspiração à relevância global é sistematicamente sabotada por ações que minam os alicerces da confiança comercial – a moeda-base do sistema internacional.
O colapso das negociações Mercosul-UE e o desdém recente de Donald Trump não são incidentes isolados, mas epifenômenos de uma desconexão crônica entre a projeção de poder desejada e a capacidade de honrar os requisitos de credibilidade que a sustentam.
A política tarifária oferece a demonstração matemática desse descompasso. Enquanto o Brasil impõe uma tarifa de 20% sobre o etanol americano, os Estados Unidos reciprocam com meros 2,5% sobre o mesmo produto brasileiro – uma assimetria que, para além de violar o princípio da nação mais favorecida em sua essência prática, sacrifica anualmente 3 bilhões de reais em fluxos comerciais potenciais.
Essa proteção seletiva, um vestígio anacrônico de substituição de importações, estende-se à União Europeia: contra uma média global de tarifas industriais de 3.8%, o Brasil ergue barreiras medianas de 11.3% para bens manufaturados europeus, inviabilizando de facto qualquer pretensão de liderança em cadeias globais de valor.
A esquizofrenia regulatória resultante gera consequências tangíveis na geometria variável das alianças econômicas.
Quando autoridades brasileiras rebatem críticas alegando que “produtos americanos-chave já têm acesso facilitado“, cometem um erro categórico: ignoram que parcerias duradouras se fundam não em concessões pontuais, mas na reciprocidade previsível e na segurança jurídica.
O resultado é a erosão acelerada da credibilidade, materializada no desinteresse estratégico de atores centrais. A indiferença de Trump diante da aproximação Brasil-China – “podem fazer o que quiserem” – é a expressão máxima dessa percepção de irrelevância negociadora.
União Europeia
Nesse contexto, a crise com a União Europeia transcende o mero dissenso e assume contornos de uma falência geopolítica calculável.
O Brasil, ao rejeitar cláusulas ambientais do acordo…
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