Jaime Pinsky na Crusoé: De Sorocaba a Jerusalém
Nasci em dezembro de 1939 e cedo aprendi que ser judeu implicava em risco de vida
Nasci e passei a infância em Sorocaba.
Dentre as muitas lembranças que carrego de lá duas têm um relevo especial: a repressão às greves operárias – minha casa ficava a poucos metros de uma fábrica têxtil e muito perto das oficinas da então Estrada de Ferro Sorocabana – e as festas religiosas, cristãs e judaicas.
A cidade não tinha sinagoga, clube, ou escola judaica.
Mas, desde pequeno, eu sabia que era judeu.
Nasci em dezembro de 1939 e cedo aprendi que ser judeu implicava em risco de vida.
Pais, tios, conhecidos, judeus e não judeus se encarregaram de deixar isso bem claro.
Fui informado, diretamente e pelo choro mal disfarçado de minha mãe, que os que haviam ficado na Europa, em vez de se mudarem para o Novo Mundo, muitos familiares, tinham virado cinza, parcela dos 6 milhões assassinados pelos nazistas alemães e seus aliados.
Uma garota que morava perto e brincava de roda com a minha irmã falou que os judeus mereceram isso, pois tinham matado Jesus.
Mas meu tio, que morava com a gente, dizia que esse era um argumento absurdo, referia-se a fatos ocorridos muito tempo atrás, quando a avó da minha avó nem pensava em nascer e que não era razoável culpar todos os judeus, que nasceram séculos e séculos depois, de algo que, no final das contas, tinha sido perpetrado pelos romanos.
Para ele, uma espécie de intelectual da família, essas ideias só existiam, assim como a perseguição aos judeus, porque estes não tinham uma pátria só deles, como brasileiros e americanos, para defender seus cidadãos.
“Mas algum dia ainda terão”, ele acrescentava sempre.
Meu tio entendia de política internacional.
Eu não entendia muito, mas lia jornal desde muito cedo e com cinco anos de idade já tinha decidido estudar História.
Li, na época, sobre a fantástica capacidade de produzir cultura por parte do ser humano – em poucos milhares de anos nosso cérebro aprendeu a construir conceitos…
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