Identitários copiam o pintor austríaco e julgam pessoas pelos seus ancestrais
A militância identitária é grotesca, com protagonistas patéticos, mas suas ideias são letais.
Duas ideias extremamente perigosas têm se espalhado na sociedade, impulsionadas por uma militância identitária cada vez mais autoritária. A primeira é a noção de que uma pessoa pode ser culpabilizada pelo que seus ancestrais fizeram. A segunda é a imposição social para que todos “reconheçam seus privilégios”. Ambas são destrutivas e têm precedentes históricos terríveis.
Esta semana, três figuras conhecidas sofreram ataques por motivos que nada têm a ver com suas próprias ações: Maria Beltrão, Maria Rita Kehl e Walter Salles. No caso de Beltrão, a “denúncia” veio do campo político petista, que tentou desqualificá-la porque seu pai foi um general do regime militar. Curiosamente, um dos principais líderes do PT é Aloizio Mercadante, cujo pai também foi general. Mas, como sempre, a “culpa” por ancestralidade é seletiva e só se aplica quando convém.
Maria Rita Kehl, por sua vez, foi alvo porque seu bisavô era eugenista. A tese identitária é que, por conta disso, ela não pode se manifestar sobre temas sociais, como se os pecados dos antepassados fossem hereditários. Walter Salles também foi atacado por uma professora universitária que disse ver nele “apenas um escravocrata”. Pouco importa que nem todos os brancos do Brasil tenham sido donos de escravos e que, na própria história do país, existissem negros alforriados que também tinham escravizados.
Parece que a militância da Vila Madalena e do Leblon está querendo reeditar o Ahnenpaß, passaporte genealógico imposto pelo pintor austríaco de bigodinho, quando se tornou presidente. O documento trazia uma certificação de ascendência para garantir que seu portador era ariano. Já sabemos onde o conceito de culpa hereditária nos leva.
Autoritários não aceitam o conceito de redenção. Há inúmeras histórias de pessoas que renegam o que seus antepassados fizeram. O filho de um general nazista condecorado por Hitler se revoltou tanto que se converteu ao judaísmo e foi morar em Israel. O filho de Pablo Escobar passou a denunciar o pai e hoje dá palestras sobre os horrores do narcotráfico. O chamado “filho do Hamas” hoje percorre o mundo denunciando o terrorismo do grupo palestino. Pessoas têm individualidade. Ninguém deve ser julgado por ancestrais.
Outra ideia igualmente destrutiva é a imposição do “reconheça seus privilégios”. Trata-se de um conceito importado que está enraizado na mesma mentalidade que levou ao genocídio de Ruanda. Os tutsis, grupo étnico favorecido durante o período colonial, foram alvo de discursos crescentes sobre sua “superioridade” econômica e histórica. Primeiro, exigiram que reconhecessem os próprios “privilégios”. Depois, começaram os ataques. O resultado foi um dos massacres mais brutais da história.
A ideia de que “racismo reverso não existe porque só o opressor pode ser racista” é uma falácia criada para justificar injustiças. Racismo é racismo, independentemente de quem é o agressor.
A militância identitária é grotesca, com protagonistas patéticos, mas suas ideias são letais. Elas devem ser combatidas não apenas porque são ridículas, mas porque já trouxeram tragédias para a humanidade.
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Comentários (2)
Ita
22.02.2025 09:27Ainda resta esperança porque temos alguém, na imprensa brasileira, que publica uma matéria desse assunto nesse nível. Obrigado.
Marcia Elizabeth Brunetti
22.02.2025 08:59Adolf Hitler. Grande pintor austríaco! Tinha esquecido que o crápula nasceu na Áustria.