Gustavo Nogy na Crusoé: Assim é (se lhe parece)
A relação que estabelecemos com o que chamamos de “realidade” não é única e compartilhada, não é direta nem objetiva
Às vezes, quando preciso entender alguma coisa, passo longe dos especialistas. Certos peritos têm tanta certeza do que dizem quanto tinham os antigos boticários que, de porta em porta, vendiam ervas para curar doenças que nem existiam.
Em janeiro deste ano, o sumo sacerdote da Meta, Mark Zuckerberg, anunciou que sua empresa faria o que toda big tech faz: captar o espírito do tempo e apontar o nariz para a direção que a biruta governamental indicasse.
Milhares de especialistas tiveram mal súbito.
E subitamente declararam, escreveram e se indignaram com o fim do fact-checking, como se isso representasse o início da Kali Yuga informacional e jornalística, o que me faz crer que eles não tinham feito o fact-checking das próprias anotações nos últimos anos.
Vamos lá, não é preciso ter anos de experiência ou scrolling para perceber que a meta da Meta nunca foi, não é e não será garantir que as informações sobre um fato correspondam ao respectivo fato, mas sim que os algoritmos conduzam os acionistas aos dados dos usuários.
Meu problema com o problema da objetividade da informação, e de como o assim chamado “consumidor de notícias” lida com as fake news e os tais fatos alternativos, é que há muito perdi a esperança no realismo ingênuo de quem produz e de quem lê o que é produzido.
Durante a pandemia, especialistas, divulgadores e autoridades surravam tratados de retórica e persuasão para convencer a dona Maria e o seu João que caixões não estavam sendo enterrados vazios e vacinas não provocavam mudança de sexo. Nada adiantava.
Nada adiantava porque às vezes a questão não é ter ou não ter acesso à informação, mesmo à informação correta, mas sim toda uma experiência existencial que não pode ser transmitida ou compartilhada entre nativos que vivem em brasis – ou universos – paralelos.
O negacionismo não é só resultado da ignorância. Gente sem instrução pode ser negacionista. Gente acadêmica também. Viés que dá em Chico dá em Francisco.
É preciso considerar agravantes e atenuantes. Por exemplo: das primeiras semanas às últimas, as recomendações sanitárias e as explicações científicas…
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