Dennys Xavier na Crusoé: O espelho rachado do tirano
Como escreveu Platão, “toda tirania começa pelo desejo de fazer o bem… e termina esquecendo o que isso significava”
Eles sempre começam do mesmo jeito: com a certeza de que sabem o que é o bem comum. Não precisam ouvir ninguém, nem debater ideias – afinal, o bem já lhes foi revelado, diretamente, como se uma deusa os tivesse beijado na testa mediúnica.
E, assim tocados pelo espírito da missão, erguem a toga, estufam o peito e declaram à nação como ela deve pensar, falar e comportar-se.
Alexandre, o de toga, não é o primeiro. E tampouco será o último.
A História, que tem a paciência de quem já viu todos os desfiles do poder, assiste de camarote ao nascimento periódico dessas figuras.
Elas surgem com discursos eloquentes, promessas de estabilidade, frases em latim e olhares severos.
Querem ordem – mas não a ordem da razão pública, e sim a do seu próprio juízo. Querem silêncio – mas não o silêncio da contemplação, é o da obediência que demandam.
Costumam dizer que defendem a democracia. É verdade. Eles a defendem de você.
O problema desses senhores – sejam generais com canetas, juízes com fúria ou legisladores com vocação de iluministas falidos – não é o autoritarismo evidente.
É o autoritarismo travestido de salvação. Um tipo de arrogância mais grave do que o grito: a de quem acredita que pode, numa empreitada messiânica, sebastianista, reeducar uma nação.
Mas a história, esta cronista impiedosa das vaidades humanas, costuma ser didática. Ao fim de cada ciclo, as figuras de autoridade que tentaram impor à sociedade um molde único, inflexível e moralmente superior, acabam por tornar-se caricaturas daquilo que quiseram destruir.
Alexandre, o outro – o da Macedônia – sonhou unir os povos sob uma mesma cultura. E morreu jovem, cercado de silêncio e suspeita.
Napoleão quis ditar os valores da Revolução à Europa pela ponta da baioneta; terminou seus dias rascunhando memórias num rochedo.
Robespierre prometeu a virtude pela guilhotina – e sentiu a lâmina na própria nuca. E tantos outros, nos palácios ou nas cortes constitucionais, acreditaram que poderiam redesenhar o mundo a partir da própria convicção.
No fim, restam estátuas derrubadas, biografias empoeiradas e um povo que – como sempre – continua, vive, ri, tropeça, erra e recomeça.
Porque o povo, ao contrário dos tiranos, esclarecidos ou não, não precisa de manual de conduta. Precisa de…
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