Dennys Xavier na Crusoé: A famigerada carta de Trump
Trump usará Bolsonaro e seus asseclas enquanto forem úteis para provocar o eleitorado conservador latino-americano
Por trás da retórica demagógica que permeia a carta publicada na quarta-feira, 9 de julho, pelo presidente norte-americano, não se esconde um clamor genuíno por liberdade civil, tampouco uma denúncia estruturada contra a coerção institucionalizada por essas bandas do Atlântico.
O que se evidencia, antes, é um conflito de natureza puramente econômica (e, ouso dizer, apenas isso). É o velho dilema da influência versus acesso: quando menciona a censura brasileira – que, sim, existe, e contra a qual devemos erguer resistência intelectual séria e fundamentada – ele não o faz em solidariedade a princípio de apreço à liberdade, mas como sinal ideológico dirigido a um grupo muito específico: os órfãos do bolsonarismo, aqueles que, sem direção institucional, buscam no messianismo norte-americano um substituto simbólico para seu líder silenciado.
Trata-se, por óbvio, de uma comunicação cifrada, calculada, voltada a inflamar a base. Um boné com os dizeres “Make America Great Again” basta para excitar os ânimos da direita latina em busca de pertencimento. A síndrome do cachorro vira-latas ganha novos contornos.
Essa mesma direita que, não faz tanto tempo, alardeava com pompa um “Brasil acima de tudo”, slogan que, sob o manto nacionalista/patriótico, escondia sua real tradução: “Até que gostamos deste país, mas se for preciso tributar o trabalhador em 50% para proteger os interesses dos nossos, aceitamos o sacrifício… o do povo, claro, não o da aristocracia política envolvida.” A hipocrisia chega a ser tragicômica.
Submissão disfarçada
O culto à soberania é, no fundo, submissão disfarçada, contanto que venha com a benção da “consciência” da ideologia: “I love you!”, disse um emocionado Bolsonaro a Trump… como um poodle, a balançar a cauda, depois de ganhar biscoito do dono. Bom menino…
É necessário lembrar, por honestidade intelectual, que o mesmo Trump que hoje se apresenta como vítima de censura também é, enquanto chefe de Estado, um entusiasta de medidas censoras. Foram inúmeros os episódios em que ameaçou processar jornais, revogar concessões televisivas, punir empresas críticas e mesmo apoiar medidas repressivas contra manifestantes – tudo isso, sempre que ferido em seu enorme ego.
A liberdade de expressão, para Trump, nunca foi uma razão de ser…
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