Bruno Soller na Crusoé: Um improvável segundo turno
Eleição na Bolívia não teve nome forte da esquerda, mas Evo Morales segue vivo no imaginário popular
Certa feita, o aragonês Francisco Goya, um dos maiores nomes da pintura espanhola e mundial cravou: “A fantasia abandonada da razão produz monstros, mas unida a ela, é mãe de todas as artes”.
Ao transportarmos para os altiplanos bolivianos do início do século, o concreto e a mística produziram um efeito que mudou por completo o rumo do país mais pobre da América do Sul.
A vitória de Evo Morales, ainda em primeiro turno, em 2005, era a promessa de dar a volta por cima em uma crise absoluta, com a questão dos hidrocarbonetos e tentativas de deposição do presidente Carlos Mesa.
Morales garantiu aprovação popular nacionalizando setores como o de minérios e de gás natural, além de criar programas de transferência de renda, como o Renda Dignidade.
Essas políticas permitiram uma aprovação recorde na sua gestão e o fizeram ser reeleito mais duas vezes como presidente.
Em novembro de 2019, a situação era outra, com Evo Morales vivendo seu pior momento como presidente.
Os bolivianos votaram em um plebiscito contra dar a ele mais um mandato presidencial.
A eleição de outubro de 2019 foi cancelada após denúncias de fraude.
Morales então foi obrigado a renunciar e buscar asilo fora de seu país, sob o risco iminente de prisão.
Mas, nem mesmo com essa crise absoluta, sua força eleitoral foi abalada.
Luis Arce Catacora, o “Lucho”, candidato indicado por Morales, foi eleito no ano seguinte, com o atributo de ter sido o ministro da economia no passado.
Em primeiro turno, Arce — a criatura do criador Morales — derrotou justamente Carlos Mesa, o presidente que havia governado a Bolívia antes da ascensão de Morales.
Como parece ser praxe na América do Sul, a criatura poucas vezes consegue ter a dimensão do criador e Arce fez um governo absolutamente desastroso.
A regra é que as criaturas são responsáveis por pagar as contas…
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