Uma descoberta nas profundezas do Pacífico revelou que nódulos metálicos podem gerar oxigênio sem qualquer luz, levantando novas questões sobre a origem desse elemento na Terra
O fundo do mar costuma ser visto como o ponto final da viagem do oxigênio
O fundo do mar costuma ser visto como o ponto final da viagem do oxigênio. A maior parte desse gás é produzida por organismos fotossintetizantes na superfície, levada por correntes às grandes profundidades e consumida por microrganismos e animais nos sedimentos.
Nesse cenário, a ideia de geração de oxigênio no oceano profundo, em completa escuridão, ainda é tratada como hipótese em avaliação.
O que é a chamada produção de oxigênio escuro?
A “produção de oxigênio escuro” descreve a aparente geração de oxigênio em ambientes sem luz, como o oceano profundo, onde a fotossíntese não ocorre. Em câmaras que isolam trechos de sedimento, espera-se queda gradual de oxigênio, mas algumas medições indicaram aumento ao longo do tempo.
Quando essa elevação é observada em completa escuridão, supõe-se que algum mecanismo desconhecido esteja atuando.
A proposta mais discutida envolve reações químicas ou eletroquímicas capazes de liberar oxigênio a partir da água ou de minerais, algo ainda sem comprovação robusta em condições naturais.

Como os nódulos polimetálicos entram nessa discussão?
Na zona Clarion-Clipperton, a cerca de 4.000 metros de profundidade, os aumentos de oxigênio foram detectados em áreas ricas em nódulos polimetálicos.
Esses nódulos concentram óxidos de manganês e ferro, além de metais como níquel, cobalto e cobre, formando concreções duras no sedimento ao longo de milhões de anos.
Medições de voltagem na superfície dos nódulos indicaram valores próximos de 1 volt, sugerindo microcircuitos naturais. Em teoria, esses campos elétricos poderiam acionar reações semelhantes à eletrólise, separando água em hidrogênio e oxigênio, mas esse mecanismo ainda carece de demonstrações diretas e repetidas.
🚨: Biologists just found oxygen being produced in absolute darkness on the ocean floor.
— Latest in Cosmos (@latestincosmos) June 7, 2026
Scientists are calling it the 'Dark Oxygen'. pic.twitter.com/uoVQExLQBb
Quais mecanismos poderiam explicar o oxigênio escuro?
Além da hipótese de eletrólise natural, pesquisadores avaliam outros processos químicos e biogeoquímicos. Em princípio, pequenas fontes de energia poderiam dirigir reações de oxidação e redução envolvendo minerais metálicos, compostos de enxofre ou carbono orgânico, liberando traços de oxigênio.
Entre as possibilidades em estudo, destacam-se:
Reações eletroquímicas em nódulos de manganês e ferro.
Transformações microbianas que gerem oxigênio como subproduto raro.
Liberação de oxigênio previamente adsorvido em minerais ou poros do sedimento.
Desequilíbrios artificiais criados pelos próprios instrumentos de medição.
O oxigênio escuro já foi comprovado no fundo do mar?
Parte da comunidade científica considera as evidências atuais insuficientes. Estudos anteriores em áreas com nódulos não registraram aumentos consistentes de oxigênio em câmaras bentônicas, e o mecanismo proposto exige uma fonte de energia mais estável do que se espera no fundo do oceano.
Também há preocupação com possíveis artefatos de medição, como bolhas de ar presas em equipamentos, vazamentos de água mais rica em oxigênio ou interferências elétricas. A ausência de replicação independente e de sinais complementares, como detecção clara de hidrogênio dissolvido, mantém a hipótese em aberto.
Por que o debate sobre oxigênio escuro é relevante?
O debate expõe o quanto o ambiente abissal ainda é pouco conhecido e tecnicamente desafiador de medir. Mesmo processos locais podem alterar modelos de consumo e disponibilidade de oxigênio em sedimentos profundos, influenciando estimativas de metabolismo microbiano e respostas do oceano a mudanças climáticas.
A discussão também afeta a avaliação de impactos da mineração em águas profundas e inspira estudos em astrobiologia, ao considerar mundos oceânicos escuros fora da Terra.
Enquanto novas campanhas de campo e experimentos laboratoriais não trazem respostas firmes, o tema permanece como lembrete da necessidade de medições mais rigorosas e interpretações cautelosas.
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