“Talento humano é o investimento mais negligenciado do mundo”, diz The Economist
A revista britânica The Economist defende política pública para identificar e formar gênios, priorizando adolescência, mentoria, redes de pares e bolsas internacionais
A revista britânica The Economist defendeu que estados invistam em descobrir e desenvolver supertalentos, sobretudo em inteligência artificial. “Cérebros, tratados com a mesma urgência, podem ser um investimento melhor no longo prazo”, afirma a publicação.
O texto abre com Ervin Macic, bósnio de 19 anos, medalhista da Olimpíada Internacional de Matemática que não pôde pagar Oxford, com anuidades de £60 mil.
Ele estudou em Sarajevo, fazendo provas em um IBM antigo, e só mais tarde conseguiu bolsa para cursar matemática e computação em Oxford.
Segundo a revista, governos fazem “compra”, não “produção”, de talento.
A China tenta repatriar cérebros com o Thousand Talents Plan e prevê lançar em outubro um visto K flexível para especialistas em ciências.
Os Estados Unidos respondem com os vistos O-1A e EB-1A, destinados a pessoas de “habilidade extraordinária”.
O Japão anunciou US$ 700 milhões para recrutar pesquisadores, e a União Europeia criou o “Choose Europe” para atrair cientistas.
Nas empresas, a escassez eleva salários e alimenta disputas por estrelas.
A crença nos “engenheiros/pesquisadores 10.000x”, expressão citada pela revista, ajuda a justificar pacotes dignos de executivos.
Duas suposições sustentam o leilão: poucas estrelas fazem diferença enorme e a oferta é fixa. A primeira tem base: o 1% do topo gera mais de um quinto das citações, escreve a The Economist.
A segunda é frágil, pois barreiras impedem talentos de florescer.
Novosad e coautores mostram que futuros vencedores do Nobel nascem, em média, no 95º percentil de renda global, enquanto 90% dos jovens vivem em países em desenvolvimento.
Nos Estados Unidos, Bell e coautores estimam que filhos do 1% mais rico têm dez vezes mais chance de virar inventores que os de renda abaixo da mediana.
A revista aponta a adolescência como o momento prático para localizar promessas.
Agarwal e Gaule constatam que olimpíadas de matemática preveem sucesso, mas alunos pobres, mesmo com notas iguais, publicam menos e têm metade da chance de doutorado em universidades de ponta.
Aghion e coautores, ao cruzar testes de conscrição finlandeses com patentes, indicam que mover um adolescente muito capaz para um lar de maior renda eleva a probabilidade de inventar. A ideia é reduzir fuga de talentos antes da universidade.
O esporte ilustra como fazer. O beisebol criou farm systems no século XX e, depois, a busca ficou global. Na última temporada, a NBA teve 125 estrangeiros de mais de 40 países, quase um quarto da liga, graças a academias e prospecção sistemática.
Sinais de genialidade também aparecem em competições. O indiano Gukesh Dommaraju virou campeão mundial de xadrez aos 18, amparado por uma cena nacional vibrante. A bahamense Hannah Cairo, 17, derrubou a conjectura Mizohata-Takeuchi, antes resistente por décadas.
Olimpíadas preveem prêmios futuros: um em cada 40 ouros da IMO rende grande prêmio científico, cinquenta vezes a taxa de alunos do MIT. Guido van Rossum, bronze, criou o Python, e metade dos fundadores da OpenAI passou por olimpíadas, relata a revista.
A identificação pode ganhar novas ferramentas. Um estudo citado por The Economist sugere que 10% dos adultos usaram o ChatGPT, com quase metade das mensagens de usuários de até 25 anos. Traços digitais podem revelar originalidade e persistência.
Desenvolver conta tanto quanto descobrir. Von Neumann teve tutoria intensa e o apoio do matemático Gábor Szegő. Calaway, de Stanford, mostra que clubes e concursos conduzidos por professores comuns multiplicam as chances de jovens seguirem pesquisa em universidades seletivas.
Em Zarzma, na Geórgia, monges ortodoxos criaram uma academia de matemática que leva alunos a olimpíadas internacionais. Mentoria próxima e treino rigoroso aparecem como combinação eficaz para transformar potencial em produção científica.
Redes locais de pares aceleram trajetórias. Akcigit, Grigsby e Nicholas ligam a era de ouro da invenção americana à migração interna de inventores. Thomas Edison saiu do interior de Ohio para montar, em Nova Jersey, o laboratório de Menlo Park.
O estado indiano de Tamil Nadu virou celeiro de grandes mestres de xadrez, impulsionado por competição e treinamento locais. Para Tyler Cowen, citado pela revista, “pelo menos é preciso levar o talento de Togo para a Nigéria” e “em toda área, clusters são universais”.
Universidades líderes são portas de entrada, mas com incentivos tortos. Cambridge oferece cerca de 600 bolsas para mais de 24 mil estrangeiros. Nos EUA, poucas instituições cobrem todos os custos, com poucas centenas de bolsistas por ano.
Estados já testaram políticas de cultivo de talento.
A Works Progress Administration financiou artistas com estúdios e palcos, apoiando Ralph Ellison e Jackson Pollock. Cingapura prepara quadros públicos com bolsas do Public Service Commission atreladas a serviço obrigatório.
A filantropia ocupa o vazio. O Global Talent Fund identifica medalhistas de olimpíadas e banca estudos em universidades líderes. Um calouro da primeira turma resolveu, com prova inédita, o quebra-cabeça sobre dividir um triângulo em triângulos todos de tamanhos distintos.
Outras iniciativas incluem o Rise, apoiado por Schmidt Futures e Rhodes Trust, com bolsas, mentoria e capital semente. A Society for Science organiza o Regeneron Science Talent Search, vitrine para pesquisas originais do ensino médio nos EUA.
Criado por Cowen, o Emergent Ventures distribui microbolsas a jovens talentosos. “Dinheiro ajuda, mas o essencial é colocar jovens com seus pares”, disse ele à revista, reforçando a tese de que aglomerações de excelência aceleram trajetórias.
O custo é baixo para governos, e o retorno, estratégico. Os EUA venceram corridas tecnológicas com recrutamento deliberado, do Projeto Manhattan ao Apollo. A Operação Paperclip trouxe mais de 1.500 pesquisadores alemães nos anos 1940 e 1950.
Hoje o recrutamento americano sofre pressão, com jovens cientistas migrando para Austrália, Alemanha e o Golfo. A proposta do presidente Donald Trump de cobrar US$ 100 mil pelo visto H-1B poderia dificultar a atração, segundo a revista.
A China forma muito mais graduados em ciências que os EUA e um quarto dos principais pesquisadores em IA, mas enfrenta dificuldade para reter os melhores, que buscam doutorados e empregos no exterior. O saldo é disputa global por cérebros qualificados.
Remover barreiras poderia multiplicar o número de inovadores no mundo.
O avanço aceleraria remédios, a transição verde e a própria IA, com ganhos de saúde, limpeza e prosperidade. “Talento desperdiçado é o motor de progresso mais negligenciado do mundo”, conclui a The Economist.
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