Reino Unido lança blocos de concreto de 6 toneladas no mar para recuperar algo perdido há mais de um século
Como blocos de concreto texturizado estão tentando devolver ao Mar do Norte o que o século 19 destruiu.
Vinte blocos de concreto de 6 toneladas cada foram afundados na costa de Tyne and Wear, no Mar do Norte britânico. Cada bloco tem 1,5 metro de altura e carrega na superfície 4 mil ostras europeias nativas. O objetivo é recriar os recifes de ostra que esse trecho do oceano perdeu há mais de cem anos.
O que o Reino Unido perdeu no mar há mais de um século?
Segundo a Zoological Society of London, a população de ostras nativas no Reino Unido declinou mais de 95% desde o século 19, num processo associado à perda de habitat, exploração intensa, poluição e doenças. Essa redução afetou não apenas a presença do molusco, mas também a estrutura ecológica das áreas costeiras onde os recifes naturais existiam.
O detalhe que muda tudo é o papel que as ostras exercem no ecossistema marinho. Uma única ostra adulta filtra até 200 litros de água por dia. Ao se alimentar, remove poluentes, nitrogênio e excesso de nutrientes da água, abrindo caminho para que a luz solar penetre mais fundo no oceano e estimule o crescimento da flora marinha. Quando os recifes desapareceram, o sistema de filtragem natural do Mar do Norte foi junto.
Por que blocos de concreto de 6 toneladas e não algo mais simples?
A resposta está numa tentativa anterior que não resistiu ao mar. Em outubro de 2023, o projeto lançou 10 mil ostras nativas sobre um recife criado na costa de Whitburn. Após a operação, eventos climáticos severos dispersaram parte do material depositado no fundo do mar. Diante desse cenário, os responsáveis decidiram testar estruturas mais robustas. Os novos blocos foram projetados para não se mover nem sob as piores tempestades.
A comparação entre as abordagens mostra por que o peso e o design importam:
| Critério | Estrutura leve anterior | Reef Cube de 6 toneladas |
|---|---|---|
| Resistência a tempestades | Dispersada por eventos climáticos severos | Imóvel mesmo no Mar do Norte |
| Superfície disponível | Lisa e pouco atrativa para fauna | Texturizada que imita rocha natural |
| Capacidade de abrigo | Baixa — sem cavidades internas | Alta — aberturas para peixes e crustáceos |
O que cada bloco carrega e como funciona o projeto na prática?
Os blocos são chamados de Reef Cubes, desenvolvidos pela empresa ARC Marine com um material específico chamado Marine Crete, projetado para ser compatível com o ambiente marinho. A superfície de cada bloco foi texturizada com rugosidade complexa e poros artificiais que reproduzem fielmente as condições de uma rocha submarina natural. Essa textura não é decorativa: é o fator que permite que ostras, crustáceos e peixes se fixem na estrutura e encontrem abrigo. Um bloco liso seria ignorado pela fauna.
Os responsáveis pelo projeto são três organizações que atuam em conjunto na restauração:
- Zoological Society of London (ZSL): coordena o programa científico, monitora os resultados e define os critérios de sucesso do recife restaurado.
- Wild Oysters: programa especializado na reprodução e fixação de ostras nativas europeias em estruturas artificiais.
- Groundwork: organização responsável pelo engajamento comunitário, incluindo os mais de 100 voluntários locais que participaram da preparação dos blocos antes do lançamento.
- ARC Marine: empresa de bioengenharia marinha que desenvolveu os Reef Cubes e o material Marine Crete.
- Comunidade de Whitburn: moradores e pescadores locais acompanham o monitoramento desde a primeira fase do projeto, em 2023.
Isso já funciona ou ainda é uma aposta científica?
Os dados das fases anteriores são encorajadores. A Zoological Society of London já registrou milhares de animais vivendo ao redor das instalações usadas na recuperação de ostras em diferentes partes do Reino Unido. Nas fissuras e irregularidades das estruturas, peixes e crustáceos encontram áreas de proteção e alimentação. O ponto ainda em aberto é se os novos Reef Cubes evoluirão para um recife autossustentável — essa é a pergunta central desta fase.
O ponto que quase ninguém percebe é que a escala está crescendo de forma acelerada. Em Norfolk, iniciativas como a Oyster Heaven e a Norfolk Seaweed planejam a instalação de 40 mil recifes de argila até o final de 2026, com meta de abrigar 4 milhões de ostras jovens, o que tornaria o projeto o maior recife restaurado de toda a Europa. O que começou com 20 blocos no fundo do Mar do Norte está se tornando uma estratégia continental, e os resultados das próximas temporadas vão determinar se o modelo pode ser replicado em outros oceanos.

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O que essa estratégia revela sobre o futuro da restauração marinha?
Afundar estruturas no oceano deixou de ser sinônimo de descarte e virou uma das ferramentas mais promissoras da bioengenharia ambiental. A lógica é clara: o fundo marinho precisa de superfície rugosa para abrigar vida, e a engenharia pode criar essa superfície onde o oceano já não a tem mais. O desafio não é tecnológico, é biológico: nenhum projeto garante que as ostras fixadas resistirão ao primeiro inverno severo.
O objetivo final, segundo os organizadores, é verificar se o conjunto vai evoluir para um recife de ostras autossustentável, capaz de se reproduzir sem intervenção humana. Se isso acontecer em Tyne and Wear, o modelo poderá ser exportado para outras regiões costeiras europeias que enfrentam o mesmo processo de colapso que o Mar do Norte viveu ao longo do século 20. Os blocos estão no fundo. O oceano decide o resto.
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