Putin traz de volta Stalin à memória russa
Atual ditador russo revisita com saudade o passado e reabilita com vontade o "trabalho" do antigo ditador soviético
Vladimir Putin é um homem obstinado. Não satisfeito em sequestrar o presente e interditar o futuro da Rússia, ele quer reescrever o passado. Nas horas vagas que lhes sobram da guerra à Ucrânia, da contabilidade de dissidentes políticos caídos de janelas e do morde-e-assopra a Donald Trump, o ditador tem promovido ativamente a reabilitação da imagem de Josef Stalin, líder soviético e seu colega no combate à democracia, que governou o país de forma implacável.
O revisionismo agora é representado com a recente inauguração de um monumento à honra de “Koba” na capital. O esforço do Kremlin parece consistir em legitimar as ações presentes através de uma reinterpretação seletiva da história.
O monumento, uma réplica da escultura que adornava a estação Taganskaya do metrô de Moscou na década de 1950, foi apresentado em maio. Ele representa o ditador em pose contemplativa, rodeado por trabalhadores e crianças que lhe oferecem flores. A peça original havia sido desmantelada em 1966, durante o período de “desestalinização” encabeçado por Nikita Khrushchev, que denunciou a repressão brutal e o culto à figura de Stalin.
Memória reinventada
Desde a ascensão de Putin ao poder, a “paisagem” histórica russa tem mudado. Nos últimos 25 anos, mais de cem monumentos a Stalin foram erguidos em território russo, com uma aceleração notável após o início da invasão à Ucrânia em fevereiro de 2022, conforme destacou o historiador russo Ivan Zheyanov ao The New York Times.
Há relatos, inclusive, de que Putin considera renomear Volgogrado para Stalingrado, um gesto que antecipa até onde iria esse revisionismo. Essa postura contrasta com declarações anteriores de Putin, nas quais ele reconhecia os crimes de Stalin e a perseguição de grupos sociais durante os expurgos stalinistas. O ressurgimento da estátua de Stalin em Moscou coincide com o 80º aniversário do Dia da Vitória e o 90º aniversário do Metrô de Moscou, inaugurado durante o regime do líder soviético.
A justificativa para essa reabilitação, amplamente difundida pelo Kremlin, está no papel de Stalin na Segunda Guerra Mundial. Conforme relatado por Steve Rosenberg, editor da BBC na Rússia, ao coletar depoimentos em Moscou, muitos cidadãos expressam visões que minimizam as atrocidades cometidas.
Um jovem, por exemplo, afirmou que Stalin é “injustamente odiado” e “fez muito pela nossa nação”. Outros ponderam que, apesar de tirano, “provou seu valor como líder”. Aspectos controversos, como o Pacto Molotov-Ribbentrop, de 1939 – também conhecido como Pacto Germano-Soviético, um acordo de não agressão com a Alemanha Nazista que resultou na divisão da Europa Oriental – são convenientemente omitidos.
Ao questionar sobre a repressão e os gulags, onde morreram entre 700 mil e 1,2 milhão de pessoas durante o “Grande Terror” entre 1936 e 1938, Rosenberg encontrou respostas que relativizam a culpa de Stalin, atribuindo-a ao “sistema” ou à falta de opções. Poucos admitem que o período stalinista foi um o que foi.
Que saudade do meu império
Além da figura de Stalin, o governo de Putin também parece empenhado em reviver a própria União Soviética (URSS). Anton Kobiakov, assessor do Kremlin, chegou a declarar que a URSS “ainda existe legalmente”, defendendo a ilegalidade do tratado de 1991 que a dissolveu.
Embora a URSS não seja mais uma entidade jurídica há mais de trinta anos, essa ideia ressoa entre russos nostálgicos. Uma pesquisa de 2021, do Levada Center, indicou que 63% dos russos, incluindo o próprio ditador, consideram que a dissolução da URSS foi um “erro”.
Essa reinterpretação histórica tem implicações geopolíticas, como a visão de Kobiakov de que o conflito na Ucrânia é uma questão interna, não uma guerra entre dois estados. Contudo, a maioria dos russos reconhece a dificuldade em ressuscitar o estado soviético. Para Rosenberg, embora seja improvável que a URSS retorne, a estratégia do Kremlin visa “mudar o passado para tentar justificar o presente” – e, quem sabe, determinar o futuro.
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