Perseguição política extraterritorial: o “braço longo” da ditadura de Daniel Ortega
Relatório denuncia "perseguições, descredibilizações e ameaças" contra nicaraguenses exilados, culminando em assassinatos como o de Samcam e outros opositores políticos
Um novo desdobramento nas investigações sobre o assassinato do major reformado Roberto Samcam, ocorrido em junho deste ano na Costa Rica, tem reforçado a tese de que o crime teria motivações políticas.
De acordo com documentos obtidos pelo EL PAÍS, as investigações do Organismo de Investigação Judicial (OIJ) foram impulsionadas por uma denúncia anônima que levou à identificação de Pablo Antonio Robles Murillo como o suposto mandante do homicídio.
Robles, um nicaraguense naturalizado costarriquenho, teria realizado “reuniões frequentes” com altos oficiais do Exército da Nicarágua, instituição leal ao governo de Daniel Ortega e Rosario Murillo, antes da execução do opositor.
A denúncia sugere que Robles possui uma longa história de ligação com o sandinismo. O suspeito é apontado como alguém que lutou ao lado do general Julio César Avilés, atual comandante das forças armadas nicaraguenses.
Além disso, o expediente indica que Robles passou um tempo na Rússia, onde teria recebido treinamento em atividades de inteligência, assassinatos e sabotagens.
Robles Murillo é acusado de orquestrar o assassinato e de ter mantido contato com um intermediário responsável pela contratação dos executores do crime, identificado apenas pelo sobrenome Chaves Medina, que foi preso pela OIJ em Cañas, Guanacaste, no dia 12 de setembro.
O dossiê detalha ainda que Robles participou de reuniões com a alta cúpula militar da Nicarágua, possivelmente coordenando os planos para a morte de Samcam.
Crimes contra a humanidade e perseguição extraterritorial
Este novo desenvolvimento nas investigações da OIJ evidencia a crescente preocupação entre os exilados nicaraguenses desde a morte de Samcam: a insegurança generalizada afeta especialmente aqueles com maior visibilidade pública e política.
Essa sensação de temor foi corroborada recentemente pelo Grupo de Especialistas em Direitos Humanos sobre a Nicarágua (GHREN) durante uma apresentação feita no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas em Genebra, Suíça.
O grupo apresentou uma atualização sobre os crimes contra a humanidade cometidos desde 2018 pelo governo Ortega-Murillo e destacou a perseguição política extraterritorial.
O relatório descreve uma “ampla e complexa rede de vigilância e inteligência” que monitora as atividades dos nicaraguenses até mesmo fora das fronteiras do país.
Os especialistas alertaram que essa rede tem possibilitado “perseguições, descredibilizações e ameaças” contra nicaraguenses exilados, culminando em assassinatos como o de Samcam e outros opositores políticos.
A documentação aponta para uma estratégia sistemática de vigilância e assédio contra a diáspora nicaraguense, caracterizando um sistema transnacional que transforma países receptores em locais inseguros para milhares de fugitivos políticos.
O regime Ortega-Murillo implementa uma política conhecida como “braço longo”, visando silenciar vozes dissidentes onde quer que estejam.
O relatório detalha uma estrutura interconectada composta por elementos do Exército, Polícia, Ministério do Interior e TELCOR (o instituto nicaraguense de telecomunicações), todos subordinados diretamente às ordens do ditador Ortega e da vice-presidente Murillo.
Essa estrutura não apenas vigia opositores dentro da Nicarágua, mas também localiza e monitora exilados na Costa Rica, Estados Unidos, México, Espanha e Panamá.
O objetivo dessa vasta operação de espionagem é eliminar qualquer vestígio da presença política da oposição no exterior. Para isso, o regime combina vigilância com sanções: negativa na emissão de passaportes, anulação de registros civis e perseguições diretas a familiares na Nicarágua.
No contexto das repressões familiares mencionadas no relatório destaca-se o conceito denominado “castigo por associação”, onde são aplicadas represálias contra parentes de dissidentes.
Este método se tornou mais comum desde 2018 à medida que aumentou o número de opositores forçados ao exílio ou expulsos da Nicarágua.
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