O dia em que o Mediterrâneo quase desapareceu e voltou com uma das maiores enchentes da Terra
A crise de salinidade messiniana foi um episódio extremo na história do Mar Mediterrâneo, marcado por isolamento em relação ao Atlântico
A crise de salinidade messiniana foi um episódio extremo na história do Mar Mediterrâneo, marcado por isolamento em relação ao Atlântico, evaporação intensa e deposição maciça de sais, que deixou um registro geológico espesso e ainda hoje debatido.
O que foi a crise de salinidade messiniana?
A crise de salinidade messiniana ocorreu entre cerca de 6 e 5,3 milhões de anos atrás, quando o Mediterrâneo perdeu a comunicação plena com o Oceano Atlântico na região do atual Estreito de Gibraltar. A evaporação passou a exceder a entrada de água por rios e chuvas, causando forte concentração salina.
Esse desequilíbrio transformou o Mediterrâneo em um grande laboratório natural de salinização, alterando paisagens costeiras, ecossistemas marinhos e o relevo adjacente.
O principal registro desse processo é um pacote de rochas evaporíticas de centenas a milhares de metros de espessura, contendo sobretudo halita e gesso.

Como se formaram os depósitos evaporíticos?
Com o isolamento progressivo, a reposição de água oceânica tornou-se insuficiente, e a evaporação levou à precipitação de sais em larga escala. Perfurações e levantamentos sísmicos, iniciados na década de 1970, revelaram uma camada contínua de sal sob praticamente toda a bacia mediterrânea.
Em alguns setores, essa pilha de evaporitos atinge espessuras de até alguns quilômetros, indicando múltiplos ciclos de enchimento parcial, evaporação e precipitação.
Estudos com isótopos de cloro sugerem uma evolução em estágios, com fases de mar ainda cheio porém hipersalino, seguidas por quedas mais acentuadas do nível da água.
O Mediterrâneo secou completamente ou manteve salmouras profundas?
Uma questão central é se o Mediterrâneo se tornou uma vasta depressão em grande parte seca ou se permaneceu, por longos períodos, preenchido por água hipersalina. As principais linhas de evidência ajudam a comparar esses cenários e apontam para uma história complexa.
Vales profundamente encaixados sob os atuais deltas do Nilo e do Ródano, esculpidos quando os rios escavavam rocha em direção a um mar rebaixado.
Depósitos de fauna costeira e bentônica marinha profunda localizados em planícies abissais, registrando o recuo das franjas d’água.
Estruturas sedimentares de transição com água salobra, sinalizando fases de isolamento onde o fluxo de rios superava a taxa de evaporação local.
Camadas quilométricas de gesso, halita e anidrita depositadas no fundo da bacia profunda devido à supersaturação iônica da água remanescente.
Como o Mar Mediterrâneo voltou a se encher?
O fim da crise está associado à inundação zancliana, quando a conexão com o Atlântico foi restabelecida em Gibraltar. Modelos indicam que a água atlântica iniciou um fluxo limitado, que foi se intensificando à medida que erodia a barreira rochosa e aprofundava o canal.
Simulações numéricas sugerem um processo de realimentação positiva, com aumento progressivo da vazão e erosão ao longo de mais de 200 quilômetros em direção ao Atlântico.
Em cenários extremos, o nível interno do Mediterrâneo poderia ter subido vários metros por dia, configurando um evento de enchimento rápido e altamente energético.
O canal Daniel García-Castellanos publicou uma representação do que aconteceu no Mediterrâneo:
Quais questões ainda intrigam os cientistas?
Apesar dos avanços, a crise de salinidade messiniana continua sendo um campo ativo de pesquisa em geologia, geofísica e paleoceanografia. Novas perfurações profundas e análises geoquímicas refinadas buscam resolver pontos-chave ainda em aberto.
Entre os principais desafios estão estimar a profundidade máxima da queda do nível do mar, reconstruir o ritmo das oscilações, integrar evidências costeiras e de mar profundo e quantificar os impactos ecológicos.
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