“O comércio virou arma”

26.06.2026

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Alexandre Borges
4 minutos de leitura 04.04.2025 06:37 comentários
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“O comércio virou arma”

Jornalista americana mostra como as tarifas adotadas nos EUA podem ser vistas como ferramenta de poder geopolítico

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Alexandre Borges
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“O comércio virou arma”
Imagem: IA por Alexandre Borges

A jornalista e antropóloga econômica Gillian Tett publicou nesta sexta, 4, no Financial Times, artigo intitulado “Como entender as tarifas de Donald Trump”.

Ela propõe uma leitura alternativa sobre a nova rodada de tarifas anunciadas pelos Estados Unidos nesta semana, afirmando que elas podem ser analisadas mais como instrumento de coerção política do que de política econômica tradicional.

Gillian Tett recorre ao pensamento do economista alemão Albert Hirschman, autor de “Poder Nacional e a Estrutura do Comércio Exterior” (1945), para fundamentar sua análise.

Segundo a autora, as tarifas anunciadas nesta semana são “tão extremas que superam até mesmo o protecionismo dos anos 1930”. Pela ótica da economia do século 20 — tanto a linha keynesiana quanto a liberal —, essas medidas seriam consideradas autodestrutivas.

Para Hirschman, diz ela, o comércio internacional é também uma arena de disputa por poder. “Enquanto uma nação soberana puder interromper o comércio com outro país por vontade própria, a busca por poder nacional estará sempre presente nas relações comerciais.”

Hirschman enxergava o comércio como “um modelo de imperialismo que não exige conquista para subordinar parceiros mais fracos”, conforme descreve Jeremy Adelman, biógrafo do economista.

Essa abordagem contrasta com a visão clássica de teóricos como Adam Smith ou David Ricardo, que partiam da premissa de que os países envolvidos nas trocas comerciais teriam níveis de poder semelhantes.

Tett destaca que essa forma de pensar ganhou força recentemente com o avanço de uma nova linha de estudos econômicos chamada “geoeconomia” – o uso de instrumentos econômicos com objetivos geopolíticos.

A jornalista cita um estudo recém-publicado pelos economistas americanos Christopher Clayton, Matteo Maggiori e Jesse Schreger, que retomam a obra de Hirschman como base para essa abordagem.

Quando começaram a trabalhar nesse campo, quatro anos atrás, “quase ninguém demonstrava interesse”, diz Maggiori. Hoje, o tema ganha espaço, inclusive em conferências da Associação Americana de Finanças, onde foi debatido em sessão especial liderada por Maurice Obstfeld, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional.

Esse novo campo de análise já produziu três observações centrais.

A primeira é que países pequenos que se tornam excessivamente dependentes de grandes parceiros comerciais se tornam vulneráveis – e os autores propõem métricas para avaliar esse risco.

A segunda é que o poder dos Estados Unidos, hoje, não está mais na indústria, mas no sistema financeiro internacional, centrado no dólar. Nesse sentido, medidas comerciais servem para pressionar outros países, enquanto a política financeira busca preservar a posição dominante americana.

A terceira observação é que o poder hegemônico não é linear. Quando um país detém, por exemplo, 80% de um mercado, exerce controle quase total. Mas, ao cair para 70%, esse poder pode se desfazer rapidamente, pois os demais países passam a visualizar alternativas.

Segundo Tett, esse raciocínio ajuda a entender por que as sanções financeiras dos EUA não conseguiram isolar a Rússia de forma eficaz – e sugere que algo semelhante pode ocorrer se os países afetados pelas tarifas atuais buscarem sistemas alternativos ao financeiro baseado no dólar.

Apesar do tom crítico em relação às tarifas, o artigo não descarta a possibilidade de transformações positivas. Tett lembra que Hirschman se definia como um “otimista pragmático” – alguém que acreditava na capacidade humana de aprender com a história para moldar o futuro.

A análise propõe, assim, um novo olhar sobre a política comercial atual, sugerindo que os instrumentos econômicos estão sendo usados também como formas de influência internacional.

Quem é Gillian Tett

Gillian Tett é jornalista do Financial Times, com doutorado em antropologia social pela Universidade de Cambridge. Tornou-se conhecida por antecipar a crise financeira de 2008 e é autora de Anthro-Vision, livro que defende o uso das ciências sociais para compreender fenômenos econômicos.

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