O cemitério eletrônico que expõe o lado mais sombrio do consumo moderno e do descarte de aparelhos usados
A história mostra como o descarte global de eletrônicos vira sobrevivência para milhares de pessoas enquanto contamina solo, ar e água.
Existe um lugar no mundo onde computadores, geladeiras e fritadeiras elétricas que sobraram do Ocidente terminam sua jornada, e é também onde mais de 40 mil pessoas constroem a vida inteira em cima desse lixo. Bem-vindo a Agbogbloshie, em Acra, capital de Gana, considerado o maior cemitério de lixo eletrônico do planeta, um lugar tão curioso quanto duro de entender até você conhecer cada detalhe dele.
Como funciona a geografia desse cemitério eletrônico
A comunidade que vive dentro da área é dividida informalmente em duas partes, separadas por um rio morto e poluído. De um lado fica Gomorra, a zona onde cabos e aparelhos são queimados para extração de metais. Do outro, Sodoma, a área residencial e de comércio, onde a vida comunitária acontece em meio à fumaça e aos resíduos.
É nesse cenário dividido que famílias inteiras moram, trabalham e sobrevivem, criando uma rotina completamente moldada pelo que o resto do mundo descarta.

O que é o chamado colonialismo de resíduos
O mundo produz mais de 60 milhões de toneladas de lixo eletrônico por ano, e apenas uma fração pequena é reciclada corretamente nos países de origem. Boa parte desse material chega à África Ocidental rotulado como “usado” ou “reparável”, mas mais da metade dos contêineres traz aparelhos completamente quebrados e inutilizáveis.
O tipo de lixo que chega muda conforme as tendências de consumo no Ocidente. Recentemente, milhares de fritadeiras elétricas sem óleo passaram a inundar o local, um eletrodoméstico que os moradores nem conheciam poucos anos atrás.
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Como é o trabalho dentro da discarica
O principal objetivo econômico é extrair cobre, e para isso os trabalhadores queimam fios em fogueiras abertas, separando o metal do plástico e do ferro. Em dias ruins, a renda fica entre 30 e 50 cedis ganeses, valor que serve tanto para a subsistência quanto para enviar dinheiro às famílias no interior do país.
Entre os personagens mais curiosos do local estão grupos de crianças organizados em bandos, que arrastam grandes ímãs pela lama para recolher fragmentos de metal. Outras rotinas e funções também marcam o dia a dia da comunidade:
- Crianças formando a chamada “polícia dos metais” para coletar limalhas
- Jovens aprendizes que tentam recuperar ventiladores e motores para revenda
- Trabalhadores adultos responsáveis pela queima dos cabos maiores
- Pequenas oficinas informais de conserto dentro da própria comunidade
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube projeto felicidade mostrando por dentro do maior cemitério de eletrônicos do planeta.
O preço que o corpo e a terra pagam por esse trabalho
O solo de Agbogbloshie está tomado por metais pesados, com níveis de chumbo que chegam a 18.000 ppm, quando o limite internacional considerado seguro é de apenas 400 ppm. O rio da região virou um esgoto a céu aberto, de onde borbulham gases tóxicos enquanto trabalhadores caminham descalços pela lama.
A fumaça da queima do plástico provoca dores crônicas na pele e nos ossos, cortes por vidro e metal infeccionam com frequência, e o contato direto com ácido de baterias é feito sem qualquer proteção.
Entre a pobreza e o sonho de um futuro diferente
Enquanto dentro da discarica um computador descartado é só metal para queima, fora dela existe outra realidade. Em projetos sociais de acolhimento, como os mantidos pela ONG ActionAid através de adoção à distância, crianças desenham computadores no papel, mas com outro significado: o desejo de estudar e se tornar médico, professor ou jogador de futebol.
Essa é a parte mais impactante de toda a história, o contraste entre o que o lixo representa para o mundo que descarta e o que ele representa para quem vive dele todos os dias. Conhecer esse lugar é entender, de forma crua e real, para onde vai parte do que jogamos fora sem pensar duas vezes.
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