Noruega está afogando seus fiordes em “esgoto de salmão”
As granjas de salmão na Noruega são apontadas como importantes fontes de poluição nos fiordes
As granjas de salmão na Noruega são apontadas como importantes fontes de poluição nos fiordes, ambientes estreitos, profundos e de lenta renovação de água.
Estudos indicam que a carga de resíduos gerada pela atividade se aproxima do esgoto doméstico de um país de médio porte, levantando dúvidas sobre a capacidade desses ecossistemas de absorver tantos nutrientes sem perder oxigênio.
Como as granjas de salmão na Noruega geram poluição nos fiordes?
A expansão da aquicultura de salmão elevou o uso de ração industrializada e, com isso, a quantidade de fezes, urina e restos de alimento lançados diretamente no mar. Esses resíduos não recebem tratamento, criando um fluxo contínuo de carga orgânica em áreas relativamente fechadas e sensíveis.
Em apenas um ano recente, foram liberadas dezenas de milhares de toneladas de nitrogênio e fósforo, além de centenas de milhares de toneladas de carbono orgânico.
Trata-se de nutrientes típicos de esgoto doméstico não tratado, o que permite comparar o impacto das granjas à poluição gerada por grandes populações humanas.

Por que os fiordes são especialmente vulneráveis à aquicultura?
Nos fiordes, a renovação de água é lenta, favorecendo o acúmulo de matéria orgânica no fundo. Sedimentos ricos em nitrogênio, fósforo e carbono intensificam a decomposição, que consome oxigênio e altera as condições de vida nas camadas profundas.
Em regiões com alta concentração de granjas, observam-se quedas persistentes de oxigênio em profundidade. Essa tendência é mais preocupante em verões quentes, quando a decomposição acelera e a reposição de oxigênio pelas camadas superficiais é limitada.
Como a criação de salmão afeta o oxigênio nos fiordes?
O excesso de nutrientes favorece proliferação de algas e organismos microscópicos, que, ao morrer, se acumulam no fundo e passam por decomposição intensa. Esse processo, chamado eutrofização, pode criar zonas hipóxicas, prejudicando peixes selvagens, invertebrados e outros organismos.
Pesquisas em fiordes como Sognefjord e Hardangerfjord apontam o aporte de nutrientes das granjas, do escoamento urbano e terrestre, somado ao aquecimento das águas, como fatores centrais da perda de oxigênio.
Sognefjord, Norway 🎥 pic.twitter.com/cGGFaRiTq2
— The Timeless Traveler (@TimelessTrvlr) August 17, 2024
Quais são os limites ambientais para a expansão das granjas?
Especialistas alertam que, quando a produção cresce mais rápido que a capacidade de suporte dos fiordes, aumentam os riscos de colapso ecológico local. Por isso, algumas autoridades norueguesas passaram a negar novas licenças em áreas críticas, citando o agravamento da falta de oxigênio.
Em certos fiordes, estudos recomendam estagnar ou reduzir a densidade de peixes por granja, permitindo recuperação dos sedimentos e da coluna d’água. Medidas de contenção são vistas como necessárias para evitar danos irreversíveis à biodiversidade marinha regional.
Que soluções podem tornar a aquicultura de salmão mais sustentável?
O setor de salmão é relevante para exportações, empregos costeiros e oferta global de proteína marinha, o que reforça a busca por alternativas de menor impacto. A seguir, estão algumas estratégias defendidas por pesquisadores e pela indústria para reduzir a poluição nos fiordes:
Melhoria do coeficiente de conversão das rações para diminuir drasticamente a fração de resíduos e dejetos na água.
Definição estrita de limites de produção por fiorde, baseando-se no cálculo matemático da capacidade de carga local.
Uso de tanques fechados ou semifechados (bacias de contenção) para reter dejetos e evitar o lançamento direto no mar.
Mensuração constante de oxigênio dissolvido, nutrientes e saúde da biodiversidade ao redor das granjas.
O futuro das granjas de salmão na Noruega dependerá do equilíbrio entre demanda global por proteína, proteção de fiordes únicos e inovação tecnológica. A forma como esse equilíbrio será alcançado tende a influenciar o debate mundial sobre a produção de alimentos no oceano.
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