Mulher é morta a facadas por marido e irmão no sul do Irã
Família de Maryam Yarmohammadi, 28, protestou contra a prisão dos dois homens; caso reacende o debate sobre crimes de honra
O marido e o irmão de Maryam Yarmohammadi, de 28 anos, confessaram ter matado a mulher a facadas na ilha de Qeshm, no sul do Irã, em 5 de outubro de 2026. Presos, os dois são alvo de um protesto de parentes da vítima, que se opõem às detenções.
O ataque ocorreu nas primeiras horas da manhã. Mãe de dois filhos, Maryam teve os órgãos genitais mutilados. A imprensa informou que cerca de 50 parentes dela se reuniram em frente ao hospital para onde foi levada.
Segundo esses relatos, os familiares teriam considerado o assassinato a “menor punição” que a mulher poderia ter recebido. Eles atribuíam a ela uma conduta que, a seu ver, justificava a morte. Qual seria essa conduta não foi revelado.
Nas redes sociais, a maneira como Maryam foi morta gerou mensagens de luto, e muitas mulheres reagiram ao caso. Houve também comentários que culpavam a vítima, falavam em “punição de uma mulher infiel” ou diziam querer “compreender a raiva dos homens”.
Honra e controle
O caso segue o padrão dos crimes de honra, nos quais prevalece a ideia de que o homem deve eliminar a suposta desonra levada à família por irmã, filha ou esposa. Quem não age pode ser rejeitado, humilhado ou excluído do meio social.
O que se considera “decoro” depende da família e das normas locais. Em regiões tradicionais, rir alto ou conversar de forma amistosa com um desconhecido pode ser visto como infração. Acusadas, muitas mulheres não têm como se defender.
Um estudo da Academia de Polícia do Irã, de 2020, definiu o crime de honra como o assassinato de uma mulher por parentes homens, por suposta violação de normas de conduta. Segundo o levantamento, esses casos somavam até 45% dos homicídios registrados em algumas províncias do oeste e do sul.
Em março de 2025, o relator especial da ONU para os direitos humanos no Irã informou que ao menos 179 mulheres foram mortas em 2024 por homens do próprio círculo familiar.
A psicanalista Saba Alaleh descreve uma estrutura que, há anos, ensina os homens a controlar as mulheres e a vigiar o comportamento e as decisões delas. A identidade masculina, diz, estaria ligada à “obediência da mulher”.
“A violência é normalizada em uma sociedade quando convicções, consentimento e silêncio atuam em conjunto dentro de uma estrutura desse tipo”, afirma.
Alaleh cita ainda outros fatores: “Quando fatores culturais, sociais, políticos, econômicos, jurídicos e educacionais estão estreitamente interligados, desenvolvem um enorme poder. Nessas condições, as mulheres também são altamente dependentes economicamente e não dispõem de apoio social suficiente. Além disso, faltam mecanismos de prevenção. Tudo isso aumenta o risco de violência”, acrescenta.
Lei e falta de amparo
As leis iranianas baseadas na sharia não tratam as mulheres como cidadãs iguais aos homens. Decisões sobre estudo, trabalho e viagens podem depender da aprovação de parentes do sexo masculino.
No direito penal, o homicídio segue o princípio da retaliação. Os familiares da vítima escolhem entre exigir a retaliação, que pode resultar em pena de morte, e perdoar o autor. Esse desenho deixa lacunas de proteção em casos de violência contra mulheres, já que parentes homens podem influenciar o processo mesmo depois da morte da vítima.
Há anos, ativistas tentam criar redes nacionais de orientação e proteção a mulheres ameaçadas. Uma delas é a Campanha pelo Fim dos Crimes de Honra, que, com apoio da sociedade civil, levou algumas mulheres a locais seguros e garantiu abrigo a elas.
A porta-voz da campanha, Rezvan Moghaddam, disse que aparentemente não havia na região ativista ou grupo em condições de apoiar Maryam. Ela afastou a ideia de crítica às militantes locais: “Eu mesma sou do Khuzistão, no sul do Irã, e conheço as limitações existentes ali”.
Conquistas e reação
A socióloga e ativista Atefeh Rangriz afirma que os feminicídios sempre existiram no país e têm sustentação em manifestações políticas ao longo da história. Para ela, as iranianas conhecem o caminho da emancipação e obtiveram muitos ganhos nas últimas décadas.
As mulheres dirigem no Irã desde 1940 e votam e disputam cargos desde 1963. Metade dos iranianos com diploma universitário são mulheres, e cresce o número das que pedem divórcio ou se separam por consenso.
Em 2022, protestos nacionais seguiram-se à morte de Jina Mahsa Amini sob custódia policial e deram origem ao movimento Mulher, Vida, Liberdade, que mudou a imagem pública das mulheres no país.
Rangriz vê uma nova postura nesse grupo: “As mulheres aprenderam a se concentrar no presente em vez de adiar a justiça para o futuro”, diz. “Querem decidir sobre seus próprios corpos, viver da maneira que desejam e se libertar de relações de dominação, opressão e exploração. Trata-se de uma espécie de revolução radical”.
Muitas mulheres já deixaram de usar o hijab obrigatório em público, o que desafia as regras de vestimenta impostas pelo Estado.
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