Maristela Basso na Crusoé: O choque entre duas emoções no conflito israelo-palestino
Negociações de paz deveriam abordar também as dimensões psicológicas dos conflitos mundiais
O conflito entre israelenses e palestinos é tradicionalmente analisado sob lentes estratégicas: segurança, fronteiras, soberania, terrorismo, ocupação, reconhecimento estatal.
No entanto, uma dimensão frequentemente subestimada ajuda a explicar a persistência do impasse: a arquitetura emocional que sustenta as decisões políticas de ambos os lados.
O filósofo israelense Micah Goodman sugere que o conflito pode ser compreendido como um choque entre duas emoções coletivas estruturantes.
Entre os israelenses, o sentimento predominante é o medo.
Entre os palestinos, a humilhação.
Essa leitura desloca o debate da pura racionalidade estratégica para a esfera da psicologia política.
Medo
O medo israelense não é circunstancial. Ele é constitutivo da identidade estatal.
Está enraizado em uma memória histórica marcada por perseguições e culminando no trauma do Holocausto.
Trata-se de um medo existencial — o temor de que a falha na autoproteção possa significar não apenas derrota política, mas aniquilação.
Na psicologia social, o medo coletivo gera três respostas recorrentes: hipervigilância, ação preventiva e legitimação moral da segurança reforçada.
Políticas de controle territorial, barreiras físicas, inspeções constantes e restrições de circulação são percebidas, nesse contexto, como instrumentos racionais de sobrevivência.
Entretanto, aquilo que para um grupo é mecanismo de autopreservação, para o outro pode ser experiência de desvalorização.
Humilhação
É aqui que emerge a segunda emoção estruturante: a humilhação palestina.
A humilhação não deriva primariamente do medo físico imediato, mas da percepção reiterada de inferiorização, perda de status e negação de dignidade.
Medidas de segurança — ainda que justificáveis sob a lógica do risco…
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