Lucas de Souza na Crusoé: Soft power em órbita
Ao retomar a ambição lunar, os Estados Unidos voltam a ocupar o centro das narrativas sobre o futuro da exploração humana
O Programa Artemis recolocou os Estados Unidos no centro da exploração espacial com uma ambição inédita desde as missões Apollo. A iniciativa prevê o retorno de astronautas à superfície lunar, a instalação de uma estação orbital permanente e o desenvolvimento de tecnologias que servirão de base para futuras viagens a Marte. Ao mesmo tempo, reorganizou alianças internacionais por meio dos Acordos Artemis, que definem normas de cooperação e exploração para os países que aderem ao projeto. A engrenagem inclui ainda o setor privado, com empresas como SpaceX e Blue Origin.
Esse avanço contrasta com o encolhimento recente de instrumentos tradicionais da diplomacia pública americana. A Usaid, historicamente responsável por programas de desenvolvimento e assistência humanitária, foi fechada pela Casa Branca em julho de 2025. O Wilson Center, tradicional espaço de pesquisa e diálogo internacional, foi reconfigurado com menor alcance programático. O U.S. Institute of Peace, criado para promover resolução de conflitos, também passou por limitações de escopo e financiamento. Ainda assim, a atual estratégia espacial reafirma a capacidade e o profundo interesse americano de projetar influência global por meio da ciência, da tecnologia e do imaginário coletivo.
A história mostra o peso desse tipo de gesto. Em 1969, a chegada de Neil Armstrong à Lua consolidou a liderança tecnológica dos Estados Unidos em plena disputa com a União Soviética. O feito moldou a percepção mundial sobre inovação e capacidade de realização, transformando a corrida espacial em uma das ferramentas mais eficazes de soft power do século 20. Ao retomar a ambição lunar, Washington recupera esse repertório e volta a ocupar o centro das narrativas sobre o futuro da exploração humana.
A nova corrida espacial, porém, tem contornos distintos. A China assumiu o papel de principal competidora, com pousos bem-sucedidos no lado oculto da Lua, planos de uma base lunar e um programa espacial que avança em ritmo acelerado. A Rússia, embora ainda presente, opera com recursos mais limitados e menor capacidade de articulação internacional. Nesse cenário, cada lançamento, cada parceria e cada marco tecnológico se convertem em demonstrações de força. A disputa não se restringe ao domínio científico: ela define quem estabelece padrões, quem atrai aliados e quem ocupa o imaginário global.
Essa rivalidade também se manifesta em outras regiões estratégicas. Na América Latina, a competição entre Estados Unidos e China se intensificou em áreas como telecomunicações, infraestrutura e logística. Debates sobre o papel chinês no Canal do Panamá, pressões sobre governos que estreitam laços com Pequim e disputas por contratos de tecnologia revelam um ambiente de coerção e contracoerção que ultrapassa a órbita terrestre. A política externa americana na região…
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