Legisladores canadenses pressionam por medidas contra repressão chinesa
Jornalistas, ativistas políticos e críticos do regime chinês temem por sua própria vida e por seus familiares
Parlamentares canadenses intensificaram seus apelos ao governo para que tome medidas decisivas contra a repressão transnacional praticada pela China, em resposta a investigações que revelaram táticas de coerção direcionadas a residentes no Canadá.
A pressão surge após relatórios detalhados da International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ), CBC News e outros parceiros de mídia, que expuseram um esforço coordenado do governo chinês para silenciar dissidentes em solo estrangeiro nos últimos dez anos.
A urgência é acentuada pela percepção de que a inação governamental pode encorajar Pequim a intensificar suas atividades, aquelas mesmas atividades aparentemente tão admiradas pelo ministro do STF, Gilmar Mendes.
A campanha global de repressão
A investigação “China Targets”, liderada pela ICIJ, que envolveu 42 parceiros de mídia globalmente, desvendou como autoridades chinesas, apoiadores do Partido Comunista Chinês e entidades ligadas ao governo empregam vigilância, pressão sobre membros da família, ataques cibernéticos e outras estratégias para atingir críticos do regime que vivem no exterior.
Baseada em entrevistas com 105 alvos e registros governamentais chineses de duas décadas, a apuração revelou uma empreitada sistemática para neutralizar a dissidência em todas as suas formas.
A congressista Jenny Kwan, do Novo Partido Democrático, nascida em Hong Kong e ela própria um “alvo permanente” do governo chinês segundo a agência de inteligência do Canadá, destacou a gravidade da situação.
Segundo Scilla Alecci, repórter da ICIJ, Kwan enfatizou que combater a repressão transnacional deve ser uma prioridade governamental imediata. Um exemplo marcante é o de Yao Zhang, uma contadora nascida na China que se tornou influenciadora política. Após apoiar um partido taiwanês defensor da independência, seus dados pessoais foram publicados em um site chinês que lista indivíduos considerados desleais a Pequim.
Zhang então foi alvo de uma campanha difamatória online que utilizou inteligência artificial para criar e disseminar imagens falsas e sexualmente explícitas dela – campanha que as autoridades canadenses atribuíram ao governo chinês. Ela descreveu a estratégia chinesa como “matar a galinha para assustar o macaco”, visando aterrorizar toda uma comunidade ao mirar em uma única pessoa. A ativista ressalta que, sem proteção internacional robusta, muitos como ela sentirão que “o medo e a restrição do pensamento são realmente perigosos para o mundo inteiro”.
Outro caso é o do parlamentar canadense Joseph Tay, procurado pelas autoridades de Hong Kong por “incitamento à secessão” e “conluio com um país estrangeiro”, com uma recompensa de US$ 130 mil oferecida por sua captura, e cujos familiares em Hong Kong foram interrogados pela polícia.
Apelos urgentes por ação e desafios
Apesar da aprovação, no ano passado, da Lei de Combate à Interferência Estrangeira – que criminaliza “intimidação, ameaças ou violência de influência estrangeira” e prevê a criação de um registro de agentes estrangeiros e de um escritório de comissário de influência estrangeira –, essas medidas ainda não foram implementadas, conforme relatou a CBC.
Michael Chong, membro do partido conservador, declarou que “é hora de agir”, afirmando que já existem relatórios e inquéritos suficientes destacando a repressão transnacional. Uma investigação recente liderada pela juíza Marie-Josée Hogue, o Inquérito Público sobre Interferência Estrangeira em Processos Eleitorais e Instituições Democráticas Federais, identificou a China como “o perpetrador mais ativo de interferência estrangeira visando as instituições democráticas do Canadá”.
Vítimas da repressão transnacional chinesa, entrevistadas pela CBC e ICIJ, expressaram pouca confiança na capacidade das autoridades em seus países adotivos de oferecer ajuda significativa. Muitos se recusaram a falar por medo de represálias contra si ou suas famílias na China e Hong Kong. Enquanto isso, a embaixada da China não respondeu aos pedidos de comentário da CBC News, e em abril, um representante do governo chinês rejeitou as alegações de repressão transnacional como “infundadas”. Este cenário complexo ressalta a necessidade urgente de uma resposta coordenada para proteger as vozes dissidentes e salvaguardar a soberania democrática.
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