Imprensa internacional vê fim da trégua entre Lula e Trump
Financial Times afirma que tarifas contra o Brasil e a classificação de facções como organizações terroristas romperam o período de distensão entre Washington e Brasília
A escalada de medidas adotadas pelos Estados Unidos contra o Brasil levou a imprensa internacional a concluir que a trégua entre Lula e Donald Trump chegou ao fim.
Em reportagem publicada na última quarta-feira, 3, o jornal britânico Financial Times avaliou que a relação entre os dois presidentes entrou em uma nova fase de confronto após uma sequência de ações anunciadas por Washington nas últimas semanas. O periódico destaca que o movimento ocorreu pouco depois de um encontro entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Trump na Casa Branca.
Segundo o FT, uma aparente acomodação entre os governos havia sido construída após o primeiro pacote de tarifas imposto pelos Estados Unidos no ano passado. No entanto, essa fase teria sido interrompida por dois anúncios considerados especialmente sensíveis para Brasília.
O primeiro foi a decisão americana de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras. A medida é defendida há mais de um ano pela família Bolsonaro, mas enfrenta resistência do governo Lula, que argumenta que a designação pode abrir espaço para pressões externas sobre a política de segurança pública brasileira.
Dias depois, a Casa Branca anunciou uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. Ao justificar a medida, o governo americano citou práticas que, segundo Washington, restringem o comércio dos Estados Unidos, incluindo críticas ao sistema de pagamentos Pix.
Para o jornal britânico, a sequência de decisões desencadeou uma tempestade política em Brasília e passou a influenciar diretamente o debate eleitoral. A reportagem menciona que Lula reagiu atribuindo responsabilidade política a Flávio Bolsonaro, a quem acusou de incentivar medidas prejudiciais ao país. O presidente chegou a apelidar a nova taxação de “TariFlávio”.
O FT também relaciona a ofensiva americana ao esforço de Flávio para estreitar laços com o grupo político de Trump, movimento semelhante ao adotado por lideranças conservadoras que obtiveram vitórias recentes em países da América Latina.
Embora o jornal ressalte que Trump não declarou apoio formal a nenhum candidato na disputa presidencial brasileira, a publicação observa que alguns gestos foram interpretados no Brasil como sinais de alinhamento com o campo bolsonarista. Entre eles, a divulgação de uma foto do presidente americano ao lado de Flávio Bolsonaro, descrito por Trump como “um jovem inteligente que ama seu país”.
O consultor político Thomas Traumann afirmou ao Financial Times que a nova postura de Washington alimenta a percepção de interferência no processo eleitoral brasileiro. Na avaliação dele, as medidas e declarações recentes dos Estados Unidos reforçam a leitura de que há um interesse em dificultar uma eventual reeleição de Lula.
A reportagem registra ainda que a proposta de novas tarifas acabou colocando Flávio Bolsonaro sob pressão, após o senador divulgar um vídeo afirmando ter pedido a Trump que não ampliasse as barreiras comerciais contra o Brasil.
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