General que liderou golpe em Mianmar é “eleito” por militares
Parlamento escolheu Min Aung Hlaing, que governava por decreto desde o golpe de 2021; mudança é vista como estratégia para legitimar o regime
Min Aung Hlaing, general de 69 anos que derrubou o governo eleito de Mianmar em 2021, foi agora “eleito” pelo Parlamento (militar) do país. A votação encerra cinco anos de governo abertamente militar e transforma o chefe da junta no mandatário formal de um Estado apenas nominalmente civil.
O país está devastado pela guerra, com forças de resistência armada atuando contra os militares desde 2021. O processo eleitoral que antecedeu a posse, realizado em dezembro de 2025 e janeiro de 2026, foi amplamente denunciado por opositores e governos ocidentais como uma encenação destinada a perpetuar o poder das Forças Armadas sob aparência democrática.
Votação no Parlamento
Na sessão desta sexta, 3, parlamentares do Partido da União, Solidariedade e Desenvolvimento (PUSD) — sigla apoiada pelo Exército — e legisladores indicados diretamente pelas Forças Armadas se uniram para garantir a vitória de Hlaing. Ele obteve 429 votos contra 126 dados ao general aposentado Nyo Saw, que atuava como primeiro-ministro da junta.
Antes da escolha, Hlaing promoveu uma reformulação no comando das Forças Armadas, que chefiava desde 2011. Para seu posto de comandante-chefe, indicou Ye Win Oo, ex-chefe de inteligência militar descrito como leal ao novo presidente.
A China, parceira histórica dos governantes de Mianmar, enviou congratulações e afirmou que apoiaria o novo governo na manutenção da paz e da estabilidade no país.
Legitimidade contestada
Para estudiosos, a mudança de título não altera a natureza do poder exercido por Hlaing: “Ele há muito tempo alimentava a ambição de trocar seu título de comandante-chefe pelo de presidente, e parece que seus sonhos agora estão se tornando realidade”, disse à Reuters o analista independente Aung Kyaw Soe.
A Anistia Internacional foi direta na avaliação: “Ele pode trocar seu uniforme militar por trajes civis, mas isso não muda nada em relação à sua suposta responsabilidade por crimes graves sob o direito internacional”.
Hlaing é alvo de investigação internacional pela perseguição à minoria muçulmana rohingya. Em 2024, o procurador do Tribunal Penal Internacional solicitou um mandado de prisão contra ele. Em 2017, mais de um milhão de membros desse grupo fugiram para o Bangladesh durante uma ofensiva militar.
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