Fim da guerra depende da morte de Putin, diz escritor ucraniano
Andrei Kurkov diz que solidariedade europeia recuou à medida que Gaza passou a concentrar as atenções internacionais
O escritor ucraniano Andrei Kurkov afirmou que o fim da guerra deflagrada pela Rússia contra seu país depende da morte do ditador russo, Vladimir Putin. A declaração foi feita durante conversa com a repórter especial Patrícia Campos Mello, em evento realizado pela Folha e pela editora Carambaia na segunda-feira, 29.
Autor de Ucrânia: Diário de uma Guerra, Kurkov relatou que a invasão russa, iniciada em fevereiro de 2022, interrompeu abruptamente sua rotina de escritor. Na noite anterior, ele reunia amigos em casa para uma refeição típica ucraniana quando ainda se discutia, de forma incerta, a possibilidade de guerra. Horas depois, explosões em Kiev marcaram o início do ataque russo.
Rotina interrompida pela guerra
Kurkov contou que precisou abandonar temporariamente um romance em elaboração — retomado somente em 2024 — para narrar o cotidiano do conflito: “Quando a guerra começa, você esquece quem é e o que gosta de fazer. Você está ocupado em entender o que está acontecendo e como sobreviver”, disse.
Em seus relatos, o autor buscou não restringir a narrativa a cenas de destruição, incluindo situações inusitadas do dia a dia em meio ao conflito. Um dos episódios citados envolve um guaxinim retirado de um zoológico em Kherson por soldados russos e usado como símbolo da ocupação, animal que se tornou, para os ucranianos, representação de resistência.
Apoio europeu e recado ao Brasil
Segundo Kurkov, o apoio da população europeia à Ucrânia diminuiu na medida em que o conflito em Gaza passou a atrair mais atenção pública, ainda que o suporte político dos governos europeus permaneça consistente.
O escritor também comentou a relação do Brasil com a Rússia, reconhecendo os interesses econômicos entre os dois países no âmbito do Brics, mas defendendo posições mais claras por parte de lideranças brasileiras.
Ele mencionou a visita recente do presidente do Cazaquistão ao Kremlin, na qual o líder cazaque defendeu publicamente o fim da guerra: “Se o Cazaquistão pode dizer isso a Putin, então talvez os políticos brasileiros possam ser mais diretos e honestos”.
Kurkov sugeriu ainda que o próximo presidente do Brasil realize uma visita oficial a Kiev, nos moldes de outros líderes europeus, prometendo, em tom de brincadeira, recebê-lo com um prato típico ucraniano caso a visita se concretize.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)