Excesso de satélites pode colapsar astronomia, alerta estudo
Observatório Europeu do Sul defende teto global de 100 mil unidades em órbita para preservar observações astronômicas
A astronomia corre risco de perder capacidade de observação caso planos de lançamento de até 1,7 milhão de satélites sejam concretizados, segundo estudo do Observatório Europeu do Sul (ESO).
A pesquisa, conduzida pelo astrônomo Olivier Hainaut e com publicação prevista na revista Astronomy & Astrophysics, propõe um limite de cerca de 100 mil satélites de baixo brilho em órbita da Terra para conter os danos às pesquisas científicas.
Segundo a revista Galileu, o trabalho é apresentado como o primeiro a mensurar o efeito conjunto de grandes constelações de satélites sobre a luminosidade natural do céu noturno. Atualmente, cerca de 14 mil satélites orbitam o planeta, mas propostas de diferentes empresas podem elevar esse número de forma expressiva nos próximos anos.
Entre os projetos considerados no levantamento está o pedido apresentado em janeiro de 2026 pela Starlink, empresa do empresário Elon Musk, para lançar 1 milhão de satélites adicionais voltados a centros de dados espaciais. O estudo também analisou as constelações Cinnamon, da empresa ESpace, e CTC-1 e CTC-2, ambas chinesas.
Rastros luminosos prejudicam imagens do espaço
Satélites iluminados pelo Sol refletem luz de forma muito mais intensa que objetos astronômicos distantes. Ao cruzar o campo de visão de um telescópio durante um registro fotográfico, cada satélite deixa uma marca clara sobre a imagem, encobrindo dados de interesse científico atrás dele.
De acordo com as simulações da equipe de Hainaut, o Very Large Telescope (VLT), instalado no deserto do Atacama, no Chile, pode captar dezenas dessas marcas em cada fotografia obtida logo após o pôr do sol. Em algumas situações, até um terço da área observada seria comprometido.
O impacto tende a ser maior em instrumentos usados para mapeamentos amplos do céu, caso do Observatório Vera C. Rubin, nos Estados Unidos. Conforme o estudo, se o brilho dos satélites superar as estimativas atuais, parcela relevante das imagens captadas por esse telescópio pode se tornar imprópria para uso científico durante horas, todas as noites.
As simulações indicam ainda que, em grande parte da noite, centenas de satélites estariam visíveis ao mesmo tempo no céu, número que pode chegar à casa dos milhares em determinados horários — quantidade próxima à de estrelas visíveis a olho nu em um céu sem poluição luminosa.
Satélites-espelho preocupam pesquisadores
Um dos projetos que mais chamam atenção no estudo é o da empresa norte-americana Reflect Orbital, que planeja lançar satélites com grandes painéis refletores para direcionar luz solar a pontos específicos da superfície terrestre durante a noite, com finalidade comercial e industrial.
Conforme as projeções do ESO, esses equipamentos seriam os objetos artificiais de maior brilho já colocados em órbita. Ao refletir luz diretamente sobre uma área, cada satélite poderia atingir brilho até quatro vezes superior ao da Lua cheia; fora do feixe principal, manteria luminosidade equivalente à do planeta Vênus.
Caso a constelação prevista pela empresa, de 50 mil satélites, seja implementada por completo, centenas de unidades permaneceriam visíveis de forma constante no céu, o que elevaria o brilho noturno natural entre três e quatro vezes, segundo os cálculos do estudo. Em cidades com forte iluminação artificial, como Munique, esses satélites poderiam se tornar os pontos mais visíveis no céu noturno.
Regulação está sob análise nos Estados Unidos
Para Hainaut, o cenário já impõe dificuldades às observações atuais, mas tende a se agravar: “Até agora, conseguimos lidar com a situação, mas está piorando”, afirmou o pesquisador, em comunicado à imprensa citado pelo ESO. Segundo ele, mesmo iniciativas voltadas à redução do brilho dos satélites não são suficientes diante do volume de lançamentos propostos: “As propostas atuais estão indo além do limite do que a astronomia pode suportar”.
O estudo também menciona possíveis efeitos fora do campo astronômico, como interferência em ritmos biológicos de animais e humanos provocada pela poluição luminosa, além de emissões associadas a lançamentos e à reentrada de equipamentos na atmosfera.
As propostas de maior escala, apresentadas pela SpaceX e pela Reflect Orbital, estão em análise pela Comissão Federal de Comunicações (FCC), órgão regulador dos Estados Unidos responsável por autorizações desse tipo. O levantamento embasou o posicionamento oficial divulgado pelo ESO, em conjunto com a Royal Astronomical Society e a União Astronômica Internacional.
O diretor-geral do ESO, Xavier Barcons, defendeu equilíbrio entre a expansão de infraestrutura espacial e a preservação da pesquisa astronômica. Segundo ele, o volume de satélites projetados para órbita baixa da Terra “ressalta a necessidade de limitar os lançamentos futuros e de que astrônomos, engenheiros, operadores de satélites e outras partes interessadas trabalhem juntos para adotar medidas rigorosas de mitigação”.
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