Eles perfuram 523 metros sob o gelo da Antártica e desenterram uma cápsula do tempo com cerca de 23 milhões de anos
Uma equipe perfurou mais de meio Km de gelo na Antártida para recuperar sedimentos que registram milhões de anos de mudanças climáticas.
Uma equipe internacional perfurou mais de meio quilômetro de gelo na Antártida Ocidental para recuperar sedimentos que registram milhões de anos de mudanças climáticas, abrindo uma janela direta para entender se a camada de gelo dessa região está à beira de um recuo rápido capaz de elevar o nível do mar em vários metros nos próximos séculos.
O que é o projeto SWAIS2C e qual o perigo do gelo da Antártida Ocidental
O projeto internacional SWAIS2C (Sensitivity of the West Antarctic Ice Sheet to 2°C) busca medir quão vulnerável é a camada de gelo da Antártida Ocidental a um aquecimento global de 2°C, limite central do Acordo de Paris.
Essa região concentra enormes volumes de gelo apoiados em rochas abaixo do nível do mar, facilitando a entrada silenciosa de água oceânica mais quente pela base.
Dados de satélite e medições de campo indicam perda acelerada de gelo, com potencial de elevar o nível médio do mar em cerca de quatro a cinco metros caso ocorra um derretimento amplo.
A grande incerteza é saber se, em condições de aquecimento semelhantes às atuais, esse sistema já colapsou ou recuou de forma irreversível no passado geológico.
O que os sedimentos revelam sobre a história oculta da camada de gelo na Antártida
No campo, cientistas usaram perfuração com água quente para atravessar 523 metros de gelo sólido e alcançar sedimentos na base da camada de gelo da Antártida Ocidental.
O núcleo de 228 metros, composto por lamas, areias e fragmentos rochosos alternados, funciona como um arquivo natural de antigos períodos de avanço e recuo do gelo.
Análises preliminares, com base em microfósseis marinhos, sugerem um registro de até 23 milhões de anos.
A presença de conchas e organismos dependentes de luz indica fases em que a área esteve sem cobertura de gelo espesso, com oceano aberto ou plataformas flutuantes substituindo a atual massa glacial aterrada.
Leia Também: Secar cascas de laranja ao sol: por que é recomendado fazer isso e para que serve
We’ve wrapped up drilling at Crary Ice Rise with 228m of sediment core, an unprecedented record of West Antarctic Ice Sheet history stretching millions of years. Initial observations indicate the core includes periods of environmental change during past times of warming. pic.twitter.com/vbXeit7Tlr
— SWAIS2C (@SWAIS2C) January 9, 2026
Como esse registro muda as projeções para o nível do mar
O objetivo central do SWAIS2C é descobrir em que momento e sob quais condições a camada de gelo da Antártida Ocidental começa a recuar de forma dramática.
Para isso, será essencial datar com precisão as camadas e reconstruir as condições oceânicas e atmosféricas associadas a cada intervalo de aquecimento.
Se o registro confirmar grandes retrações ou colapsos parciais em períodos com temperaturas globais cerca de 2°C acima do nível pré-industrial, modelos atuais de projeção do nível do mar terão de ser endurecidos.
Isso afeta diretamente o planejamento de cidades costeiras, infraestrutura crítica e ecossistemas já pressionados pelo avanço do oceano.
Quais análises serão feitas a partir do núcleo sedimentar?
Com o núcleo fora do gelo, o foco passa a laboratórios em vários países, onde diferentes métodos serão combinados para decifrar a história da camada de gelo da Antártida Ocidental.
Essas análises vão transformar o sedimento bruto em evidências concretas sobre a sensibilidade da região ao aquecimento atual.
🧊 Quais análises serão feitas a partir do núcleo sedimentar?
O material retirado do fundo marinho funciona como um verdadeiro arquivo da Terra, permitindo reconstruir milhares de anos de mudanças ambientais, oceânicas e climáticas.
| Análise | O que ela revela |
|---|---|
|
Datação das camadas
|
Os pesquisadores utilizarão isótopos radioativos e a comparação com registros marinhos e atmosféricos globais para determinar a idade de cada camada do sedimento, criando uma linha do tempo precisa da evolução climática da região.
Cronologia climática
|
|
Reconstrução oceânica
|
A composição do núcleo permitirá identificar períodos em que o oceano apresentou águas mais quentes, alterações nas correntes marinhas e episódios de intrusão de águas profundas, fundamentais para entender a dinâmica do Atlântico Sul.
Mudanças no oceano
|
|
Histórico do gelo
|
Os sedimentos ajudarão a distinguir fases em que havia gelo espesso, plataformas flutuantes ou até mesmo ausência de cobertura glacial, revelando como a Antártica respondeu às mudanças climáticas ao longo do tempo.
Evolução das geleiras
|
|
Integração em modelos climáticos
|
Os dados obtidos serão incorporados a modelos climáticos para refinar projeções sobre a elevação futura do nível do mar, identificar possíveis pontos de inflexão e aumentar a precisão das previsões para as próximas décadas.
Previsões mais precisas
|
Que alertas esse arquivo climático traz para o século XXI
O núcleo recuperado fornece um teste brutal da estabilidade da Antártida diante de um planeta mais quente, mostrando quando, onde e quão rápido a camada de gelo da Antártida Ocidental já cedeu no passado.
Isso permite avaliar se pequenos incrementos adicionais de temperatura podem disparar mudanças abruptas e difíceis de reverter.
Ao identificar períodos antigos com aquecimento semelhante ao projetado para este século e comparar a resposta do gelo, os cientistas ganham parâmetros reais para calibrar previsões de nível do mar.
Em um mundo em rápida mudança, esse arquivo escondido sob o gelo pode ser a diferença entre planejamento antecipado e surpresa catastrófica para milhões que vivem hoje à beira do oceano.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)