Dennys Xavier na Crusoé: A promessa ilusória das guerras
Regimes autoritários são estruturas densas, que raramente se resumem a indivíduos
A história política tem uma inclinação curiosa para produzir acontecimentos que parecem decisivos e que, examinados com algum distanciamento, revelam-se menos transformadores do que anunciaram no primeiro momento.
Guerras, intervenções militares, capturas espetaculares de governantes ou a morte de líderes que pareciam inseparáveis do regime criam a sensação de que uma página foi definitivamente virada.
A imaginação pública, alimentada pela dramaticidade do evento, tende a acreditar que a remoção de um homem (ou de um grupo de líderes) corresponde, necessariamente, à dissolução de todo um sistema.
Mas a experiência histórica mostra algo mais complexo e, muitas vezes, mais frustrante: regimes raramente se resumem a indivíduos.
Eles são estruturas densas, compostas de instituições, redes de fidelidade, aparelhos burocráticos e hábitos de poder que sobrevivem com relativa facilidade à queda de seus protagonistas mais visíveis.
A guerra, nesse cenário, costuma aparecer como promessa de ruptura.
Ela surge no discurso político como o instrumento capaz de realizar aquilo que os processos lentos da vida civil não conseguem produzir.
Em torno dela se forma frequentemente uma expectativa de purificação histórica, como se a violência concentrada pudesse dissolver velhos sistemas e inaugurar uma nova ordem.
No entanto, a observação cuidadosa da experiência política revela que a guerra raramente cumpre essa promessa de maneira tão direta. Muitas vezes, ela apenas desloca os centros de comando, preservando grande parte da engrenagem que sustentava o poder anterior.
Tucídides
Essa ambiguidade não passou despercebida aos observadores mais lúcidos da Antiguidade. Tucídides, refletindo sobre os efeitos da guerra nas cidades gregas, escreveu em sua História da Guerra do Peloponeso:
“A guerra é uma mestra violenta; e, ao trazer a maior parte das circunstâncias da vida ao nível das necessidades presentes, molda o caráter dos homens…
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