Como regimes autoritários inventam uma realidade alternativa?
Rússia e China manipulam informações para corroer a imagem das democracias ocidentais e projetar um futuro sob liderança autocrática
Já faz tempo que o conceito de desinformação deixou de ser apenas a produção e propagação de mentiras mais ou menos óbvias e “fake news”. Estados autoritários como a Rússia, China e Coreia do Norte fazem muito mais do que produzir notícias falsas ou esconder dados públicos. Inventam uma realidade política alternativa.
O objetivo é sabotar a reputação das democracias ocidentais, que poderiam seduzir seus próprios “súditos”, e vender o atraso do autoritarismo como se vanguarda fosse.
A construção dessa realidade política paralela pressupõe o destaque desproporcional aos (supostos) fatos positivos a respeito das ditaduras. Informações inconvenientes são ignoradas ou retiradas de contexto, alinhando-as com os propósitos do narrador.
O Kremlin, sob a batuta de Vladimir Putin e a ideologia de Alexandr Dugin, faz uso consistente da máquina estatal de comunicação para dispersar um fluxo constante de narrativas que circulam como artigos, vídeos, “tweets” e publicações em redes sociais, desenhadas para influenciar e polarizar discussões políticas em nações democráticas.
Relatórios indicam que tais histórias conseguem alcançar públicos muito além de suas fontes russas originais. As mentiras são repetidas por usuários online e comentaristas de mídia local ou nacional – às vezes, de boa-fé; muitas outras vezes, quando cooptados, com intenção deliberada.
Táticas narrativas e para desestabilização democrática
Uma temática recorrente nesses veículos é a sugestão de que as sociedades democráticas são caóticas, imorais e estariam prestes a entrar em colapso. A cobertura midiática superestima os índices de criminalidade, corrupção e desordem social nos países livres.
Também é comum exagerar na percepção dos protestos públicos, da instabilidade governamental ou da estagnação econômica, usando-os como prova de que um sistema liberal não funciona a contento. A mensagem subjacente é que democracia é sinônimo de desordem.
Outras estratégias consistem em ridicularizar valores progressistas típicos de sociedades ocidentais. Mudanças sociais, como, por exemplo, as relacionadas aos direitos LGBTQ+ ou ao multiculturalismo, são retratadas como ilógicas ou absurdas.
Existe também a tática de usar queixas legítimas, mas as enquadrar de modo a intensificar sentimentos de vitimização e discriminação, como se todo o ocidente tivesse dos cidadãos russos e chineses uma imagem preconceituosa.
Alternativa autoritária
Aiden Hoyle, professor do Instituto de Segurança e Assuntos Globais, da Universidade de Leiden, Holanda, diz que “tanto a Rússia quanto a China criticam a ordem internacional baseada em regras, uma estrutura de regras liberais e normas políticas que surgiu após a Segunda Guerra Mundial. Elas consideram essa ordem eurocêntrica e desejam remodelá-la em seu próprio benefício”.
Notícias sobre falta de coesão em alianças ocidentais, como a União Europeia ou a OTAN, são elementos consistentes na narrativa russa e chinesa. Em contraste, Rússia e China são retratadas como nações sensatas, estáveis e racionais, que tentam proteger os países mais vulneráveis da exploração ocidental.
Para Hoyle, “a desinformação hoje em dia não se resume a mentiras flagrantes, mas sim à sutil transformação da nossa percepção do mundo. Com o tempo, essa mudança silenciosa pode ir muito além do alcance de uma manchete falsa, levando-nos a questionar o próprio valor da democracia”.
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Comentários (1)
Andre Luis Dos Santos
20.11.2025 22:51E a PTralhada admira esses cretinos e pensa de forma idêntica a eles.