Clarita Maia na Crusoé: Judeus, homo sacer
O silêncio de Brasília diante da morte de um brasileiro judeu sob custódia na Turquia
Eu tenho tatuagens judaicas. Escrevo isso não como confissão, mas como dado.
Desde a segunda-feira, 12, quando o Consulado do Brasil em Istambul comunicou à família a morte de Lucas Nascimento de Medeiros, 33 anos, essa frase deixou de ser uma informação sobre o meu corpo e virou pergunta: seria eu cortada, espancada e morta sob o silêncio conivente das autoridades? É isso?
Os fatos conhecidos são poucos e, por isso mesmo, eloquentes.
Lucas, paulistano, empresário e programador, vivia legalmente na Europa há cerca de sete anos.
Foi à Turquia fazer um curso de falcoaria.
Tinha tatuada no corpo a bandeira de Israel com o Leão de Judá e usava, com frequência, uma Estrela de Davi no pescoço.
Na madrugada de 5 para 6 de outubro, contou à mãe que se envolvera numa briga com moradores locais por causa de religião.
Teve o rosto cortado. Fez o que qualquer um de nós faria: procurou a polícia.
Saiu de lá não como vítima, mas como detido, levado ao Centro de Remoção de Harmandalı, em Esmirna, para ser deportado. Mandou à mãe a localização pelo WhatsApp. No dia 8, parou de responder.
A versão que chegou depois à família é a de que um corpo foi encontrado num quarto de hotel, ao lado de drogas ilícitas e do passaporte dele.
O irmão, Marcos, fez a pergunta que qualquer pessoa honesta faria: como alguém que está num centro de imigração aparece morto num hotel?
A irmã embarcou para reconhecer o corpo. A mãe, que chegou a ir a Guarulhos às cinco da manhã esperar o filho que voltaria para conhecer as sobrinhas recém-nascidas, espera agora outra coisa.
Não sei o que aconteceu com Lucas. Ninguém sabe ainda…
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