Clarita Maia na Crusoé: A esquerda latina se aproxima da ditadura argentina
Ao atribuir a Israel a responsabilidade por queimadas na Patagônia, setores políticos reciclam um léxico conspiratório já desmascarado há quase um século
As recentes tentativas de atribuir a Israel a responsabilidade pelas queimadas na Patagônia não constituem um fenômeno isolado nem propriamente novo.
Elas se inserem em uma tradição longa, conhecida e amplamente desmascarada de teorias conspiratórias de matriz antissemita, que atravessam o século XX e chegam ao XXI travestidas de crítica política.
O que chama atenção é a naturalidade com que esse repertório volta a ser mobilizado, agora tanto por alas da esquerda quanto da direita, apesar de seu caráter fraudulento ter sido juridicamente reconhecido há mais de 90 anos.
Os Protocolos dos Sábios de Sião
Em 1934, no chamado Julgamento de Berna, um tribunal suíço concluiu que Os Protocolos dos Sábios de Sião, texto que sustenta a ideia de uma conspiração judaica global para dominar o mundo, eram uma falsificação grosseira, plagiada de panfletos políticos do século XIX.
A decisão judicial não apenas reconheceu a fraude documental, como também identificou o caráter deliberadamente antissemita da obra, destinada a incitar ódio e justificar perseguições. Desde então, não há qualquer dúvida, no plano histórico ou jurídico, quanto à natureza fraudulenta desse material.
Ainda assim, seu léxico permanece vivo.
A ideia de um ente abstrato, onipotente, invisível e global — “Israel”, “o sionismo”, “os judeus”, usados de forma intercambiável — reaparece ciclicamente como explicação para crises complexas: colapsos econômicos, conflitos armados, pandemias, catástrofes ambientais.
O roteiro é sempre o mesmo: ausência de provas verificáveis, alegações de tecnologias secretas, interesses ocultos e uma suposta coordenação internacional impossível de ser refutada porque jamais é demonstrada.
Queimadas na Patagônia
No caso das queimadas na Patagônia, as chamadas “evidências” apresentadas seguem esse padrão clássico.
Menções vagas a investimentos israelenses na região, cooperações tecnológicas legítimas, acordos bilaterais ou presença de empresas estrangeiras são artificialmente conectadas a incêndios florestais que têm causas amplamente documentadas: mudanças climáticas, secas prolongadas, ventos intensos, falhas estatais de prevenção, manejo inadequado do solo e, em alguns casos, ação humana local.
Nenhum dado técnico sério, relatório ambiental…
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